
Quando o caminho é a descarbonização, faz pouco sentido que a energia limpa seja a mais cara.
Em Portugal Continental, acendeu-se uma luz vermelha no debate sobre energia: a eletricidade, que é cerca de 70% renovável, continua a ser muito mais cara do que o gás natural, que é 100% fóssil. Uma contradição difícil de explicar a quem se pede que troque os combustíveis poluentes por soluções elétricas – das bombas de calor aos carros elétricos.
Segundo a associação ambientalista Zero, o preço médio da eletricidade para o setor doméstico é de 0,1658 €/kWh, enquanto o do gás natural é de apenas 0,0785 €/kWh – menos de metade. Para as famílias com tarifa social, a diferença é ainda mais gritante: a eletricidade custa quase três vezes mais. Mesmo no caso do gás em botija, o consumidor continua a pagar menos, ficando a eletricidade cerca de 1,5 vezes mais cara.
Esta disparidade não é apenas uma questão de bolso. É também um travão à transição energética. Ao tornar o gás mais barato, o sistema fiscal e regulatório acaba por incentivar o consumo de um combustível fóssil e importado, deixando a eletricidade – mais limpa e produzida em grande parte dentro do país – em desvantagem.
A Zero explica que esta distorção resulta, em parte, dos investimentos públicos feitos na rede de gás, muitas vezes com apoio europeu, que acabaram por subsidiar indiretamente o consumo de gás canalizado. Já a rede elétrica não tem essa almofada: a sua manutenção e expansão são diretamente repercutidas na fatura de todos nós.
O resultado? Uma energia mais verde que custa mais e uma economia exposta a choques externos, já que o preço do gás depende de mercados internacionais voláteis – como se viu em 2022, com a crise energética.
Por isso, a associação defende que o Estado avance com políticas fiscais verdes que façam o preço da eletricidade refletir os seus benefícios ambientais e estratégicos. Ou seja: reduzir encargos na fatura elétrica e corrigir a vantagem artificial do gás fóssil.
Se o objetivo é descarbonizar, não podemos continuar a enviar o sinal errado. A eletricidade precisa de sair do alerta vermelho – e passar a ser, também no preço, a energia de futuro.
