
A UNESCO conclui que cada grau de aquecimento evitado pode reduzir drasticamente os riscos para ecossistemas e comunidades, mostrando como uma variação aparentemente pequena tem efeitos muito concretos no planeta.
A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) publicou um novo relatório que ajuda a perceber, de forma concreta, o impacto das alterações climáticas no planeta e no quotidiano de milhões de pessoas. A principal conclusão é que limitar o aquecimento global a 1°C até 2050 pode evitar danos irreversíveis em metade dos sítios naturais e culturais mais ameaçados do mundo.
Os mais de 2.260 sítios classificados pela UNESCO ocupam mais de 13 milhões de quilómetros quadrados, uma área maior do que a China e a Índia juntas. Nestes territórios vivem cerca de 900 milhões de pessoas, o equivalente a 10% da população mundial, e coexistem mais de 1.000 línguas.
Mas o impacto vai além das comunidades humanas. Estes locais concentram mais de 60% das espécies conhecidas no planeta, sendo que cerca de 40% não existem em mais nenhum lugar. Ao mesmo tempo, armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono, funcionando como verdadeiros “amortecedores” naturais face às emissões globais.
O problema é que este equilíbrio é frágil. Segundo o relatório, mais de um em cada quatro sítios pode atingir pontos de inflexão até 2050, o que significa entrar num estado de degradação irreversível. Na prática, isto pode traduzir-se no desaparecimento de glaciares, colapso de recifes de coral, perda de espécies ou alterações profundas em florestas.
Martin Delaroche, especialista ambiental da UNESCO, resume a ideia central: “Uma diferença mínima de temperatura pode levar a um aumento incrível dos riscos”. Ou seja, não é preciso um aumento extremo para que os efeitos se tornem significativos.
Ao mesmo tempo, o relatório mostra que estes sítios também são exemplos de resiliência. Apesar de a população global de vida selvagem ter caído 73% desde 1970, nas áreas protegidas pela UNESCO essa tendência tem-se mantido relativamente estável. Tales Carvalho Resende, coautor do estudo, destaca que estes territórios são “exemplos muito poderosos de resiliência”.
Essa resiliência está muitas vezes ligada às comunidades locais e aos povos indígenas, que estão presentes em pelo menos 25% destes territórios, número que sobe para quase 50% em regiões como África, Caraíbas e América Latina. Em muitos casos, são estas comunidades que preservam práticas agrícolas, sistemas de gestão de recursos e formas de viver que existem há milhares de anos.
O relatório evidencia como pequenas decisões globais têm impactos concretos. Cada grau de aquecimento evitado pode reduzir significativamente os riscos, protegendo não apenas ecossistemas, mas também culturas, economias e modos de vida que dependem diretamente deles.
