
Um terço dos habitats protegidos na União Europeia depende de pastoreio extensivo, segundo a Agência Europeia do Ambiente, mostrando que a presença controlada de animais pode ser decisiva para preservar ecossistemas.
A Agência Europeia do Ambiente (AEA) estima que cerca de um terço dos habitats protegidos na União Europeia depende de uma prática agrícola que, à primeira vista, pode parecer contraditória com a conservação da natureza: o pastoreio de animais. Em causa está o chamado pastoreio extensivo, um modelo que ajuda a manter ecossistemas equilibrados e biodiversos.
Para perceber o impacto, é preciso começar pela distinção essencial. Nem toda a pecuária funciona da mesma forma. No modelo intensivo, os animais são criados em espaços fechados, muitas vezes durante todo o ano, com o objetivo de maximizar a produção. Já no pastoreio extensivo, os animais circulam livremente por grandes áreas, alimentando-se de forma natural e interagindo com o território.
É essa interação que faz a diferença. Ao pastarem, espécies como vacas, ovelhas ou cabras moldam a paisagem de forma contínua. Reduzem a vegetação excessiva, criam zonas abertas e evitam que determinadas áreas sejam dominadas por uma única espécie vegetal. Este “equilíbrio dinâmico” é fundamental para a sobrevivência de muitos ecossistemas.
Segundo a AEA, habitats que beneficiariam deste tipo de gestão ocupam pelo menos 35 milhões de hectares na União Europeia, cerca de 22% da área agrícola total. Ainda assim, bastaria entre 10% e 15% do total de bovinos, ovinos e caprinos, cerca de 7,8 milhões de animais, distribuídos de forma adequada, para garantir a manutenção dessas áreas protegidas.
Isto significa que uma fração relativamente pequena do efetivo pecuário europeu seria suficiente para assegurar a conservação destes ecossistemas, o que reforça a ideia de que o desafio não está tanto na quantidade de animais, mas sim na forma como estão distribuídos e no tipo de sistema em que são utilizados.
Na prática, há hoje animais “a mais” em sistemas intensivos, concentrados em determinadas regiões, e “a menos” nas zonas onde o pastoreio extensivo é essencial para manter os habitats. Ou seja, o problema não é falta de capacidade, mas um desalinhamento entre onde estão os animais e onde eles fazem mais falta do ponto de vista ecológico.
O impacto vai além da paisagem. Muitas espécies dependem diretamente deste tipo de ambiente. É o caso das borboletas: 92% das espécies protegidas na União Europeia estão associadas a prados geridos de forma extensiva. O mesmo acontece com várias aves e plantas, que encontram nestes ecossistemas as condições ideais para sobreviver.
Há também um efeito menos evidente, mas relevante: a prevenção de incêndios. Ao consumirem vegetação seca e ao abrirem espaço no terreno, os animais reduzem a quantidade de combustível disponível, ajudando a limitar a propagação do fogo.
Este papel dos animais não é novo. Antes da domesticação, grandes herbívoros selvagens, como bisontes ou cavalos selvagens, desempenhavam funções semelhantes. O pastoreio atual, quando bem gerido, substitui em parte esse equilíbrio natural perdido.
O problema é que este modelo está a desaparecer. Entre 2010 e 2020, o número de explorações extensivas caiu mais de 70% na União Europeia, segundo dados da Comissão Europeia. Ao mesmo tempo, a produção intensiva concentra-se nas regiões mais produtivas, enquanto as zonas mais remotas, onde o pastoreio extensivo é mais necessário, ficam abandonadas.
Esse abandono tem consequências diretas. Sem animais a gerir o território, muitos habitats degradam-se ou desaparecem, colocando em risco espécies que dependem desses ambientes.
A discussão em torno da pecuária tende a focar-se no impacto ambiental, sobretudo nas emissões. Mas este retrato mostra que a equação é mais complexa. O mesmo setor pode ser parte do problema ou da solução, dependendo de como é gerido.
A Comissão Europeia está a preparar uma estratégia para o setor pecuário que pretende equilibrar competitividade, sustentabilidade e resiliência. Entre os pontos em análise está precisamente o papel do pastoreio extensivo na preservação da biodiversidade e na implementação das metas ambientais para 2030.
Perceber esta diferença ajuda a ler o tema de forma mais completa. Não se trata apenas de reduzir impactos, mas também de identificar práticas que contribuem ativamente para manter os ecossistemas funcionais.
