
A Comissão Europeia estima que serão necessários investimentos de 1,2 biliões de euros até 2040 para modernizar e interligar as redes elétricas da União Europeia, um passo considerado essencial para acelerar a transição energética, reduzir emissões e reforçar a autonomia do bloco face a choques externos.
Quando se fala de transição energética, o debate público tende a centrar-se nas fontes renováveis, painéis solares, turbinas eólicas ou veículos elétricos. Mas há um elemento menos visível e absolutamente decisivo para a sustentabilidade ambiental da Europa: as redes elétricas. Sem redes modernas, interligadas e resilientes, a eletricidade limpa simplesmente não chega onde é precisa, nem quando é precisa.
É nesse contexto que a Comissão Europeia estima serem necessários investimentos de 1,2 biliões de euros nas redes elétricas da União Europeia até 2040. Deste valor, cerca de 730 mil milhões de euros destinam-se às redes de distribuição e 240 mil milhões de euros às redes de hidrogénio, numa estratégia que Bruxelas considera indispensável para alcançar a neutralidade climática até 2050.
A sustentabilidade surge aqui como o ponto de partida. Redes mais eficientes permitem integrar uma maior percentagem de energias renováveis, reduzir perdas no transporte de eletricidade e equilibrar produção e consumo em tempo real. Isto traduz-se numa redução efetiva das emissões de gases com efeito de estufa e numa utilização mais racional dos recursos energéticos disponíveis.
Mas o impacto vai além do ambiente. Segundo a Comissão Europeia, a insuficiente integração e o subinvestimento nas infraestruturas energéticas têm um efeito direto nas faturas de eletricidade dos cidadãos. Uma rede fragmentada obriga a recorrer mais vezes a fontes fósseis de emergência, frequentemente mais caras e poluentes, sobretudo em momentos de tensão geopolítica ou volatilidade dos preços internacionais da energia.
Atualmente, a União Europeia continua fortemente dependente de importações de petróleo e gás, o que a deixa exposta a riscos externos. Modernizar as redes elétricas é, por isso, também uma questão de soberania energética. Uma rede mais interligada entre Estados-membros permite partilhar excedentes de eletricidade renovável, reduzir a necessidade de importações e reforçar a resiliência do sistema em situações de crise.
Bruxelas sublinha que o financiamento destas infraestruturas representa um desafio, já que as redes são maioritariamente financiadas através de tarifas pagas pelos consumidores. Para mitigar esse impacto, a Comissão Europeia pretende reforçar o apoio público no próximo orçamento de longo prazo da União Europeia. No atual Quadro Financeiro Plurianual 2021–2027, o Mecanismo Interligar a Europa disponibiliza 5,8 mil milhões de euros para projetos energéticos transfronteiriços. Para o período 2028–2034, a proposta em discussão prevê um aumento para 29,91 mil milhões de euros, cinco vezes mais.
Além do financiamento público, Bruxelas conta com um papel reforçado do Banco Europeu de Investimento e com a mobilização de capital privado, considerado essencial para acelerar a implantação de redes rentáveis e tecnologicamente avançadas.
O pacote europeu agora apresentado inclui medidas para melhorar o planeamento transfronteiriço das infraestruturas, acelerar processos de licenciamento, garantir uma partilha mais equilibrada de custos e benefícios entre países e reforçar a segurança física e digital das redes. O objetivo é criar um sistema energético verdadeiramente integrado à escala europeia.
Os benefícios económicos associados são significativos. A Comissão Europeia estima que um investimento de cinco mil milhões de euros em redes pode gerar uma redução de custos do sistema de oito mil milhões de euros, criando um ganho líquido de três mil milhões. Uma maior integração do mercado elétrico poderá traduzir-se em poupanças anuais de 40 mil milhões de euros, enquanto um aumento de 50% no comércio transfronteiriço de eletricidade poderá acrescentar cerca de 18 mil milhões de euros ao crescimento anual do PIB da União Europeia até 2030.
As propostas seguem agora para debate no Parlamento Europeu e no Conselho, onde os Estados-membros terão de equilibrar ambição climática, sustentabilidade económica e justiça social. O que está em causa não são apenas cabos e subestações, mas a capacidade de a Europa construir um sistema energético mais limpo, mais autónomo e mais preparado para os desafios das próximas décadas.
