
Investigadores de vários países concluíram que o lixo marinho afunda-se maioritariamente até ao fundo do oceano e que sem métodos comuns de recolha e análise de dados será impossível medir e controlar a verdadeira dimensão da poluição que chega ao mar a partir de rios e sistemas de gestão ineficientes.
A poluição marinha continua a crescer e, apesar de toda a atenção mediática centrada nos microplásticos, a realidade mais incómoda está no fundo do oceano. Para os cientistas que assinam um novo estudo, a maioria dos resíduos não flutua nem permanece à vista. Afunda-se. E transforma vastas zonas do fundo marinho num depósito permanente de objetos descartados.
O alerta parte de uma equipa liderada por Miquel Canals, professor da Faculdade de Ciências da Terra da Universidade de Barcelona, que trabalhou com investigadores da Comissão Europeia, do Japão, da Alemanha, de França e da China. A mensagem é simples, mas exige ação: sem um método comum e uma estratégia global, não será possível perceber a verdadeira escala do problema.
O ponto de partida é desmontar uma perceção errada. O lixo marinho não nasce no mar. Chega lá a partir da terra, maioritariamente transportado por rios. Vários dos cursos de água com maiores descargas de resíduos estão na Ásia, como o Yangtzé, o Mekong ou o Ganges, e em África, como o Níger e o Nilo. A isto juntam-se fenómenos extremos, como o tsunami de 2011 no Japão, além de atividades humanas recorrentes, como a pesca, que contribuem para o volume de redes, cabos, boias ou pneus encontrados no fundo marinho.
Cada país vive o problema de forma distinta. Nas economias em desenvolvimento, a ausência de sistemas de gestão de resíduos leva ao descarte direto para o ambiente, o que facilita o transporte para o mar. Em economias mais desenvolvidas, a equação é diferente, mas inclui variáveis como a densidade populacional, a meteorologia e a consciência ambiental. O Mediterrâneo é um caso especialmente crítico. Na zona do Estreito de Messina, por exemplo, encontram-se frigoríficos, automóveis e brinquedos arrastados por episódios de chuva intensa.
Os cientistas sublinham que a dificuldade maior está na ausência de um sistema global de monitorização. Sem métodos harmonizados para recolher, categorizar e comparar dados, cada estudo gera estimativas muito diferentes. Para resolver isto, o roteiro apresentado defende o recurso a tecnologias avançadas, como drones subaquáticos, sonar, batimetria de alta resolução e algoritmos modernos de análise de imagem. As empresas privadas, que acumulam milhares de horas de vídeo e dados recolhidos no mar, são vistas como parceiras indispensáveis na construção de uma base de conhecimento histórica.
Mas há um ponto essencial: o combate eficaz tem de começar em terra. Reduzir a produção de resíduos, melhorar a gestão e evitar que o lixo entre nos ecossistemas é mais eficaz e menos arriscado do que tentar retirar objetos do fundo marinho. Operações de limpeza subaquática só fazem sentido em cenários muito específicos, devido às exigências técnicas e ao risco de causar danos adicionais.
Do lado político, os investigadores lembram que já existem medidas importantes, como a Diretiva-Quadro Estratégia Marinha da União Europeia ou a diretiva que regula os plásticos de utilização única. No entanto, o plano global para um tratado internacional contra a poluição por plásticos continua sem consenso, depois das negociações falhadas em Genebra no passado mês de agosto.
A dimensão do que permanece desconhecido é, por si só, um alerta. Apenas 0,001% do fundo oceânico abaixo dos 200 metros foi visualizado desde 1958, apesar de essa área representar 66% da superfície marinha. Para Miquel Canals, este número sintetiza a urgência: o planeta está a tomar decisões sobre um problema cuja escala real ainda não compreende. A proposta agora publicada procura justamente preencher essa lacuna, com métodos comuns, dados comparáveis e uma estratégia global que permita finalmente agir a partir da informação certa.
