
Há lugares onde a comida nos alimenta e há lugares onde a comida nos transporta. O Po Tat, restaurante do Hotel Palácio do Governador, em Belém, pertence à segunda categoria. Mais do que uma refeição, aqui vive-se uma experiência pensada para surpreender os sentidos e homenagear as viagens, as rotas e as confluências culturais que fazem parte da nossa história e da nossa identidade.
Fomos convidados a experimentar a nova carta de verão, desenhada pelo chef André Santos, e rapidamente percebemos que o Po Tat não se limita a reinterpretar a cozinha portuguesa. Reinventa-a com alma e ousadia, num registo de fusão que liga os ingredientes da estação a técnicas e sabores vindos do Oriente, com claras influências da gastronomia japonesa, tailandesa, chinesa e coreana. O resultado? Pratos que mantêm o coração português, mas falam várias línguas, com fluência e criatividade.
A viagem começou com um couvert que deixou marca: um pão de massa mãe de sabor profundo e textura impecável, acompanhado por uma manteiga adocicada com mel que, sem exageros, foi o início perfeito para uma noite memorável. É este cuidado com os detalhes, desde o primeiro momento, que se sente ao longo de toda a refeição.
A pequena estrela da noite
Seguiu-se um momento de puro deleite: o rissol de lula e berbigão à Bulhão Pato. Um clássico reinventado com mestria, crocante por fora e delicado por dentro, com um recheio cremoso que preserva toda a essência do mar e a personalidade da receita. Um prato que resume bem a filosofia do chef: respeitar o produto, reinventar a tradição e contar histórias através dos sabores.
Depois, chegou a vez do lírio, peixe nobre, delicado e nem sempre fácil de trabalhar, que aqui se revelou em todo o seu esplendor. Fresco, servido com notas cítricas e uma acidez controlada, foi um dos momentos altos da noite. A intervenção do chef foi contida, mas absolutamente decisiva para exaltar as qualidades do produto.
Da Ásia, chegam-nos os aromas do caril verde, servido com noodles de trigo sarraceno, camarão e cebola frita. Um prato intenso, mas equilibrado, com uma massa no ponto exato e um molho envolvente, sem excessos. Uma fusão feliz, onde se sente o cuidado de quem não quer deslumbrar pela excentricidade, mas sim pelo sabor.
O tamboril, grelhado no ponto certo, com couve chinesa e um molho branco sedoso, reafirma a identidade portuguesa do restaurante, mesmo quando piscamos o olho ao Oriente. A textura firme do peixe, a harmonia dos acompanhamentos e o molho absolutamente viciante transformam este prato numa referência da nova carta.
Momentos doces
As sobremesas, fiéis à linha criativa da casa, não desiludem. A combinação de manga fresca com o inesperado gelado de arroz negro é inteligente, refrescante e diferenciadora. É este tipo de propostas que tornam o Po Tat num restaurante com assinatura, onde a sobremesa não precisa de ser um fim, mas sim uma nova etapa da viagem.
A acompanhar tudo isto, o vinho branco Terra dos Grifos mostrou-se à altura: versátil, fresco e elegante, ligando bem com a diversidade de propostas e reforçando a experiência. E quando já se pensava que não havia mais surpresas, surge o pastel de nata artesanal, feito na casa. Crocante, cremoso, com o equilíbrio perfeito entre doçura e especiaria, este pequeno prodígio devia mesmo ter vida própria e ser vendido à parte, tal é a sua qualidade.
Com um ambiente sofisticado, uma decoração elegante que nos remete para paragens distantes e um passado de descoberta, uma esplanada que convida a noites longas e um serviço atento, mas descontraído, o Po Tat é o reflexo de uma nova Lisboa gastronómica: global, criativa, mas profundamente enraizada na sua cultura. Uma cozinha de fusão, sim, mas com raízes bem fundas e propósito claro.
Artigo por Rui Reis






