
A Fundação Oceano Azul e vários cientistas defendem que o oceano, responsável por absorver 25% do carbono e 90% do calor do planeta, deve ocupar um lugar central nas decisões globais sobre o clima, dada a sua influência direta na estabilidade ambiental
O oceano é hoje encarado pela comunidade científica como o elemento que mais pesa no futuro climático do planeta. Essa perspetiva, defendida por investigadores como Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Investigação de Impacto Climático, assenta em números que não deixam margem para dúvidas. O mar funciona como o maior regulador térmico da Terra, absorvendo cerca de 90% do excesso de calor provocado pelo aumento das emissões e retirando da atmosfera aproximadamente 25% do carbono libertado pelos combustíveis fósseis. Esta capacidade de amortecedor natural tem evitado cenários mais severos de aquecimento global, mas está longe de ser infinita.
Segundo Rockström, o oceano “acabará por determinar o desfecho da crise climática”. Uma afirmação que parte da constatação científica de que a hidrosfera, tal como a biosfera, é um dos sistemas que sustenta a própria existência da atmosfera. Sem um oceano funcional, com níveis estáveis de temperatura, salinidade e biodiversidade, o equilíbrio climático torna-se impossível. A questão, alertam os especialistas, é que o oceano começa a dar sinais claros de saturação. Ondas de calor marinhas, perda de oxigénio e acidificação estão a avançar mais depressa do que muitos modelos previam.
É neste contexto que diversas instituições, incluindo a Fundação Oceano Azul, reforçam a necessidade de proteger o mar através de práticas sustentáveis. A pesca, a gestão das áreas costeiras e a redução da eutrofização causada por fertilizantes e escoamentos agrícolas são apontadas como frentes urgentes de intervenção. A criação e expansão de áreas marinhas protegidas surge igualmente como mecanismo central para restaurar habitats e preservar espécies essenciais ao funcionamento do ecossistema global.
No contexto da recente COP30, Tiago Pitta e Cunha, administrador executivo da Fundação Oceano Azul, sublinha que a relevância do oceano continua subestimada em muitas decisões políticas. Um dos exemplos que aponta é a ausência de um ponto dedicado exclusivamente ao oceano nas agendas oficiais das grandes cimeiras climáticas. Sem um espaço próprio, argumenta, o tema fica “disperso numa floresta de procedimentos”, o que dificulta o acompanhamento técnico e reduz a transparência das negociações. A proposta, apresentada pela primeira vez há oito anos pelas Fiji, continua por concretizar, deixando o oceano numa posição secundária apesar da sua importância científica.
A crítica tem um fundamento central, pois 80% da diversidade biológica do planeta está no oceano. É esta biomassa, distribuída por recifes, profundezas abissais e zonas costeiras, que assegura processos vitais como a produção de oxigénio, a regulação térmica e a captura de carbono. Quando estes sistemas entram em stress, toda a estrutura climática se fragiliza. Por isso, alertam os investigadores, continuar a tratar o oceano como um tema periférico é ignorar a base física que permite que o clima global se mantenha funcional.
