
Dez anos depois do Acordo de Paris, os governos continuam a planear produzir mais do dobro de carvão, petróleo e gás do que o planeta pode suportar. O novo Production Gap Report 2025 é um murro no estômago: em vez de reduzir, estamos a acelerar rumo ao colapso climático.
Uma década após o Acordo de Paris, o mundo não está mais perto de sair da dependência dos combustíveis fósseis: está mais longe. O Production Gap Report 2025, elaborado pelo Stockholm Environment Institute (SEI), Climate Analytics e IISD (International Institute for Sustainable Development), confirma que os países produtores planeiam, até 2030, extrair 120% mais combustíveis fósseis do que seria compatível com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Mesmo o limite menos ambicioso de 2 °C será ultrapassado, já que as previsões excedem em 77%.
Pior: o desfasamento entre metas e ações aumentou desde a última edição do relatório, em 2023, quando o excesso de produção era de 110% para 1,5 °C e 69% para 2 °C. Em vez de reduzir gradualmente, os governos estão a cavar um buraco mais fundo, o que vai exigir cortes ainda mais drásticos no futuro para atingir a neutralidade carbónica na segunda metade do século, algo que o próprio Acordo de Paris já prevê.
A lista dos países que continuam a apostar na produção de carvão, petróleo e gás é longa e inclui praticamente todos os grandes produtores: Arábia Saudita, Estados Unidos da América, China, Brasil, Índia, Rússia, entre outros. Apenas seis dos 20 países analisados estão a desenvolver cenários de produção alinhados com metas de neutralidade carbónica e, mesmo nesses, os planos ainda são insuficientes.
O mais inquietante é a desconexão entre o discurso e a prática. Desde a COP28, no Dubai, ouvimos promessas de uma “transição para uma saída dos combustíveis fósseis”. Mas, na prática, os investimentos continuam a fluir para novos poços de petróleo, novas minas de carvão e novas infraestruturas de gás. Esta duplicidade é perigosa: cada dólar gasto em expandir a produção de fósseis é um dólar que não vai para acelerar a transição energética, eletrificar transportes ou tornar as nossas cidades mais resilientes.
A mensagem do relatório é clara e dura: se os governos não inverterem urgentemente esta tendência, estaremos a condenar as próximas gerações a enfrentar secas, incêndios, tempestades e crises alimentares cada vez mais devastadoras. A COP30, em novembro no Brasil, será um teste decisivo para perceber se os líderes mundiais estão dispostos a trocar retórica por ação.
