
Durante a Guerra Fria (1945-1989) e até ao início da invasão da Ucrânia pelas tropas russas, falava-se das armas nucleares como factor de dissuasão, mas, nos últimos tempos, são cada vez mais numerosas as declarações sobre a possibilidade do emprego desse tipo de armas de destruição maciça.
No dia 8 de Abril, o Serviço de Informações Externo russo (SVR) acusou a União Europeia de estar a explorar secretamente “a possibilidade de desenvolver armas nucleares para se defender da suposta ameaça russa.
“A União Europeia embarcou num caminho que mina os fundamentos da arquitectura de segurança global e do sistema internacional de não proliferação de armas de destruição maciça em prol de uma nova ‘marcha para o Oriente'”, lê-se num comunicado desse serviço.
Segundo o SVR, “os membros da comunidade, liderados pela dirigente da UE, Ursula von der Leyen, fingem continuar a proteger-se sob o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos da América. Na realidade, querem ganhar tempo para desenvolver a sua própria indústria bélica”.
O Serviço de Informações russoacrescenta que “a Alemanha, a Itália, a República Checa, a Bélgica, os Países Baixos, a Suécia e a Espanha já possuem capacidade industrial civil e militar, além de grandes quantidades de combustível radioactivo proveniente de centrais nucleares. Por exemplo, especialistas alemães são capazes de obter, secretamente, a quantidade de plutónio num mês e de urânio suficientes para criar uma bomba nuclear no prazo de uma semana”.
Efectivamente, depois da invasão do território ucraniano pelas hordas putinistas, alguns países da União Europeia referiram a possibilidade de fabricar armas nucleares. Por exemplo, a Polónia já manifestou essa intenção.
A Alemanha, por sua vez, desmentiu qualquer possibilidade de possuir armas atómicas, mas não esconde o objectivo de se juntar a países europeus como a França e a Alemanha com vista a aumentar o poderio nuclear europeu.
E até a Ucrânia não esconde o desejo de possuir semelhante armamento. Se ainda não os tem, não é por falta de urânio enriquecido, nem por incapacidade tecnológica, mas devido à pressão do chamado Ocidente, que não pretende enfrentar uma perigosa escalada militar. Aliás, os países europeus sublinham que não é sua intenção atacar a Rússia, afirmação convincente tendo em conta, por exemplo, a instabilidade no interior da Aliança Atlântica.
Em Moscovo, pelo contrário, o emprego de armas nucleares contra a Ucrânia e os países da NATO é defendido por vários dirigentes russos.
O próprio ditador Putin não exclui essa possibilidade no caso do envolvimento directo da NATO na guerra da Ucrânia ou de uma deterioração significativa da situação militar para a Rússia na frente de combate. Em particular, esta questão surgiu no outono de 2022, o que levou os americanos a pressionar Kiev para que as Forças Armadas da Ucrânia não atacassem as tropas russas que estavam a retirar-se da margem direita do Dniepre. Além disso, Moscovo insinuou que poderia usar armas nucleares se o ataque das Forças Armadas da Ucrânia no verão de 2023 fosse bem-sucedido.
Além disso, a probabilidade de utilização de armas nucleares aumenta se o Ocidente tomar medidas que causem danos críticos à capacidade da Rússia em continuar a guerra – por exemplo, bloqueando a navegação no Báltico e capturando navios da “frota sombra”.
Note-se que, desde 2023, a Rússia não enfrentou uma situação em que estivesse perante a ameaça de derrota. As ações do Ocidente causam danos à Rússia, mas não são críticos. As capturas de petroleiros continuam, mas são esporádicas. Além disso, após o início da guerra no Irão, a situação geopolítica e económica geral mudou drasticamente a favor da Rússia.
No entanto, estas mesmas alterações geopolíticas enfraqueceram significativamente os dois “obstáculos” à utilização de armas nucleares pela Rússia. Segundo alguns analistas russos, na situação em que os Estados Unidos estão envolvidos na guerra com o Irão, o recurso a armas nucleares por Putin seria, de alguma forma, vantajosa para Trump, uma vez que seria mais fácil para ele e para Israel justificar um ataque nuclear contra o Irão ou ameaçar Teerão com um ultimato. O mesmo poderia acontecer com Pequim em relação a Taiwan.
Mas o inverso também é verdadeiro: se os americanos ou Israel utilizarem armas nucleares contra o Irão, a probabilidade de utilização de armas nucleares contra a Ucrânia aumentará drasticamente.
Esses mesmos analistas defendem que o bloqueio do Estreito de Ormuz aumentou a importância da Rússia para os mercados mundiais como fornecedor de hidrocarbonetos e outras matérias-primas. Especialmente para os países do Sul Global e para a China. Por conseguinte, a probabilidade de um isolamento internacional total da Rússia, no caso de utilização de armas nucleares, diminui.
Todos estes pontos também representam uma ameaça para a estratégia principal da Ucrânia na guerra. É perigoso aumentar sistematicamente os danos materiais provocados à Rússia e apostar na derrota de Putin na expectativa de que a Rússia não ouse utilizar armas nucleares e, se o fizer, será alvo de um ataque por parte da NATO ou será isolada internacionalmente, ou ambos.
Por enquanto, o Kremlin não passou das ameaças de retaliação. Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, declarou que o seu país irá responder ao facto de os países do Báltico permitirem os voos de drones ucranianos rumo aos portos no Noroeste russo. Alguns bloggers militares putinistas apelam a Putin que lance ataques punitivos contra a Estónia, Letónia e Lituânia.
Há muito tempo que também Dmitri Medvedev, vice-chefe do Conselho de Segurança da Rússia, tem ameaçado a Ucrânia e os membros da Aliança Atlântica com o recurso a armamentos estratégicos.
E, mais recentemente, o oligarca ortodoxo Konstantin Malofeev, um dos principais ideólogos do “partido da guerra” russo, exige, num artigo intitulado “É hora de acabar com esta guerra”, o emprego de armas nucleares para obrigar a Ucrânia a render-se, fazendo uma analogia com o ataque nuclear americano ao Japão, que forçou a sua rendição.
“O bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki, após quase quatro anos de guerra no Pacífico, permitiu salvar dezenas de milhares de vidas americanas e, não esqueçamos, soviéticas”, escreve Malofeev.
Segundo ele, a continuação da guerra na Ucrânia com armas convencionais resultará em grandes perdas e, portanto, “se uma das armas nucleares puder pôr fim a uma guerra de quatro anos, deve ser empregue”.
Malofeev propõe um ataque nuclear à Ucrânia Ocidental para evitar estragos na Rússia, tese altamente problemática porque o Kremlin ainda não controla os ventos e as nuvens radioactivas. Propõe igualmente que a população seja avisada com 72 horas de antecedência para que possa abandonar essa região.
Os apelos para “usar a arma nuclear” também são constantes entre os seus seguidores. Porém, actualmente, a influência destes na tomada de decisão em Moscovo não deve ser sobrestimada. Alguns bloggers pró-Kremlin consideram-no mesmo um “nazi”.
É verdade que, até agora, a ameaça nuclear não passou do plano verbal. Porém, a situação crítica criada por Putin na Ucrânia e por Trump no Médio Oriente podem ter consequências catastróficas para toda a Humanidade.
José Milhazes, historiador e jornalista
