
O Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2025 premiou uma ONG que se especializou na defesa da Antártida. Quem é esta instituição e por que é que a Antártida é tão crítica para a saúde do planeta?
A Antarctic and Southern Ocean Coalition (ASOC) foi a vencedora do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2025, em reconhecimento do seu trabalho na proteção de uma das regiões do mundo mais sensíveis às alterações climáticas.
E também das mais relevantes do ponto de vista ambiental. Eis porquê: apesar da sua localização remota, a Antártida é um pilar da estabilidade global. O Tratado da Antártida, assinado em 1959, atribuiu-lhe a designação de continente de paz e cooperação, tornando-a reserva para fins pacíficos e de investigação científica.
Com cerca de 90% do gelo terrestre e cerca de 70% da água doce do planeta, a Antártida é fundamental para este esforço.
O Oceano Antártico representa, por si só, cerca de 10% do oceano global e alberga quase 10.000 espécies únicas.
As suas poderosas correntes regulam as temperaturas do planeta, impulsionam os ciclos de nutrientes e sustentam a biodiversidade marinha que constitui a base da cadeia alimentar global. Contudo, a região encontra-se atualmente num momento crítico, enfrentando impactos climáticos acelerados, nomeadamente anomalias extremas na temperatura, ondas de calor marinhas e diminuição do gelo marinho, com partes da Antártida a aquecerem mais do dobro da média global.
Angela Merkel, Presidente do Júri, sublinha que “a região da Antártida é um ecossistema único e frágil, particularmente vulnerável aos efeitos das alterações climáticas. Ao situar-se fora da jurisdição de um só país, a região precisa de um nível extraordinário de cooperação internacional para proteger e preservar este recurso precioso”.
Relativamente à atribuição do prémio à ASOC, “o Júri quis reconhecer as conquistas da Antarctic and Southern Ocean Coalition e a forma como tem demonstrado que a colaboração global é possível. A Antarctic and Southern Ocean Coalition transmite esperança às gerações vindouras e é uma justa vencedora deste prémio”, afirma Angela Merkel.
Desde 1978, quando foi fundada, a ASOC tem sido a principal voz da conservação da Antártida, trabalhando exclusivamente para a sua proteção e a do Oceano circundante.
Desde então, a ASOC reuniu organizações ambientais de prestígio de mais de 10 países, formando uma coligação resiliente e articulada de membros, parceiros, ativistas e apoiantes. Visto que a Antártida se encontra fora da jurisdição de uma só nação, a cooperação multilateral tem sido essencial para a sua proteção.
Sendo a única ONG ambiental convidada a participar como observadora nas reuniões do Tratado da Antártida, a ASOC trabalha ao mais alto nível na governação polar. A sua presença garante que as preocupações ambientais não só são ouvidas, mas também integradas nas políticas e ações relativas à região. A ASOC representa a comunidade de conservação da Antártida nos corredores do poder onde são tomadas decisões de importância global sobre o seu futuro. Trabalhando em conjunto com os 21 membros da Coligação, parceiros, ativistas e apoiantes, a ASOC informa e incentiva os líderes mundiais a proteger a Antártida em prol de toda a humanidade.
Ao longo dos últimos 50 anos, a ASOC tem demonstrado, de forma consistente, como uma voz única, assente num objetivo partilhado e num compromisso a longo prazo, pode influenciar a governação e a preservação de um dos ambientes mais intocados do planeta.
O Prémio é atribuído numa altura em que as Nações Unidas declararam 2025 como o Ano Internacional da Preservação dos Glaciares, lançando a Década de Ação para as Ciências da Criosfera (2025-2034). A comunidade internacional está finalmente a reconhecer o papel essencial da criosfera — os mantos de gelo, os glaciares e as calotes polares da Terra — na regulação do clima. A liderança da ASOC ajuda a transformar o conhecimento científico em ação global, salvaguardando os sistemas dos quais a vida na Terra depende.
