
Em Tróia, cidadãos juntaram-se a cientistas para explorar a biodiversidade local. A iniciativa é mais do que uma simples observação da natureza: é ciência-cidadã em ação, onde todos podem contribuir para o conhecimento e preservação do ecossistema.
Nas margens da restinga de areia de Tróia, onde o Atlântico encontra o estuário do Sado, esconde-se um verdadeiro laboratório a céu aberto. Há mais de duas décadas que uma equipa de biólogos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa estuda este ecossistema. O resultado é uma vasta coleção de dados, com listas extensas de espécies que documentam a riqueza natural desta península – desde líquenes discretos a árvores imponentes, desde insetos minúsculos a aves migratórias.
Como relata Francisco Andrade, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, “temos agora um grande conjunto de dados, organizados em extensas listas de espécies, que demonstram a grande biodiversidade natural nesta península”. Mas essas listas são apenas o início. “Há que reconhecer e conseguir ‘ler’ essas espécies, das mais comuns às mais raras e difíceis de encontrar”, sublinha o cientista. Mas a leitura da biodiversidade não se resume a um inventário – trata-se de compreender relações ecológicas, dinâmicas de habitats, adaptações surpreendentes e até ameaças silenciosas, como as espécies invasoras.
É neste contexto que surge a ciência-cidadã como um aliado indispensável. Mas afinal, o que é exatamente a ciência-cidadã?
O que é a ciência-cidadã?
A ciência-cidadã é uma forma de produção de conhecimento científico que envolve a participação ativa de cidadãos comuns – sem formação científica especializada – em projetos de investigação. Estes cidadãos podem ajudar a recolher dados, a fazer observações, a identificar espécies ou até a interpretar resultados. Esta colaboração entre cientistas e a sociedade não só amplia a capacidade de recolha de informação como promove a literacia científica e a ligação emocional ao ambiente.
Ao permitir que qualquer pessoa se torne parte integrante do processo científico, a ciência-cidadã democratiza o conhecimento. Mas mais do que isso: permite que a ciência vá além dos muros das universidades e se enraíze no quotidiano de quem observa, cuida e vive o território.
Tróia: um exemplo vivo
No passado fim-de-semana alargado de 25, 26 e 27 de abril, a equipa liderada por Francisco Andrade juntou curiosos, amantes da natureza ou simplesmente cidadãos atentos, para participar numa nova fase desta longa investigação como ajuda à descoberta de espécies presentes em Tróia, contribuindo para uma melhor compreensão da estrutura ecológica de Tróia. Com a orientação dos investigadores, os cidadãos puderam aprender a distinguir espécies autóctones de invasoras, a reconhecer sinais de desequilíbrios e a perceber como os ecossistemas reagem às alterações climáticas ou à ação humana.
Porque é que a ciência-cidadã importa?
Numa era marcada por rápidas alterações ambientais, pela perda de biodiversidade e pela crescente desinformação científica, a ciência-cidadã surge como uma ponte entre o conhecimento académico e a consciência pública. Como afirma Francisco Andrade, “numa lógica de compromisso para com o futuro, é nossa missão estimular a ciência cidadã, um conceito que fomenta a partilha e a aquisição de conhecimento através de uma interação que permite ao cidadão aprender e apreender realidades presentes na natureza”.
A ciência-cidadã não substitui a ciência tradicional – complementa-a. Amplia o olhar, envolve mais pessoas e, sobretudo, desperta para a urgência da conservação dos nossos ecossistemas. Porque quem conhece, valoriza. E quem valoriza, protege.
