
A recente escalada de tensões no Médio Oriente voltou a provocar uma subida dos preços do petróleo e dos combustíveis. Para a associação ambientalista ZERO, o episódio mostra, mais uma vez, como a dependência do petróleo continua a expor economias como a portuguesa a choques externos.
A subida recente dos preços dos combustíveis, associada ao aumento das tensões no Médio Oriente, voltou a colocar em evidência uma fragilidade estrutural da economia portuguesa: a forte dependência do petróleo no setor dos transportes.
De acordo com a associação ambientalista ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, Portugal continua excessivamente exposto à volatilidade dos mercados internacionais de petróleo, o que tem impactos diretos na inflação, no custo de vida e na competitividade económica.
A situação não é inédita. Há poucos anos, a guerra na Ucrânia já tinha desencadeado um choque energético na Europa e levantado um debate sobre a dependência do continente face a fornecedores externos de energia, em particular a Rússia. Agora, a instabilidade no Médio Oriente volta a mostrar como fatores geopolíticos podem rapidamente repercutir-se nos preços pagos pelos consumidores.
Segundo a ZERO, a vulnerabilidade é particularmente visível no setor dos transportes. Em 2023, esta área representava cerca de 34% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa e continua a depender quase totalmente de combustíveis fósseis importados.
“Portugal importa todo o petróleo que consome, sendo o gasóleo o principal combustível utilizado no transporte rodoviário de mercadorias e passageiros. Sempre que o preço internacional do petróleo sobe, os impactos propagam-se rapidamente por toda a economia, aumentando os custos de transporte de bens e serviços e pressionando a inflação”, refere a associação.
Para a ZERO, a resposta estrutural a estas crises não passa por reduções temporárias de impostos sobre combustíveis fósseis, mas por reduzir a dependência do petróleo.
“A experiência recente demonstra que a melhor proteção contra esta volatilidade não é a redução temporária de impostos sobre os combustíveis fósseis, mas sim a redução estrutural da dependência do petróleo, através da eletrificação de veículos, principalmente os de uso intensivo, e do reforço do transporte público”, sublinha a organização.
Nesse sentido, a associação considera prioritário acelerar investimentos que, segundo afirma, continuam atrasados em Portugal. Entre eles está a melhoria da oferta ferroviária de passageiros e mercadorias, bem como a expansão das redes de metro nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.
A ZERO considera também essencial acelerar a eletrificação de veículos rodoviários, sobretudo nos segmentos com maior intensidade de utilização, como autocarros urbanos e interurbanos, veículos de mercadorias, táxis, TVDE (transporte individual e remunerado de passageiros em veículos descaracterizados a partir de plataforma eletrónica) e frotas empresariais.
De acordo com a associação, estes veículos percorrem muitos mais quilómetros por ano do que um automóvel privado. Um táxi ou um veículo ligeiro de mercadorias pode percorrer entre 50 mil e 80 mil quilómetros por ano, consumindo milhares de litros de gasóleo. A substituição por veículos elétricos pode reduzir os custos energéticos entre 60% e 70%, além de eliminar emissões diretas de dióxido de carbono.
No transporte público rodoviário, a eletrificação também pode ter impacto significativo. Um autocarro elétrico pode evitar o consumo anual de 30 mil a 40 mil litros de gasóleo, reduzindo simultaneamente custos operacionais e emissões.
Apesar do crescimento das vendas de veículos elétricos em Portugal, a ZERO considera que o ritmo da transição ainda não é suficiente para reduzir o consumo total de combustíveis fósseis. As matrículas de automóveis ligeiros de passageiros 100% elétricos passaram de cerca de 41,7 mil em 2024 para 52,3 mil em 2025, um aumento de 25,1%. No entanto, no mesmo período, o consumo de combustíveis rodoviários aumentou 0,7%.
Para a associação, estes números mostram que a eletrificação precisa de se concentrar nos veículos que mais quilómetros percorrem.
A organização defende também uma mudança na forma como são utilizados os impostos sobre combustíveis. As receitas anuais do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) e de outros impostos rodoviários ultrapassam atualmente 4,5 mil milhões de euros por ano.
Segundo a ZERO, parte dessas receitas deveria ser progressivamente consignada ao financiamento da mobilidade sustentável, incluindo transporte público e programas de eletrificação de frotas.
A associação considera ainda que a atual crise energética demonstra que a transição energética não é apenas uma questão ambiental, mas também económica e social. Cada subida abrupta do preço do petróleo traduz-se em custos mais elevados de transporte, aumento de preços de bens essenciais e perda de poder de compra das famílias.
Para a ZERO, a conclusão das crises recentes é clara: reduzir a dependência do petróleo através de mais transporte público e maior eletrificação dos transportes pode tornar a economia menos vulnerável a choques geopolíticos e às flutuações dos mercados energéticos.
