Não fui eu que inventei o título deste artigo, mas encontrei-o num dos muitos meios de propaganda pró-Putin. Pedi emprestado porque reflecte muito bem o estado de espírito que reina no Kremlin.
Continuam a ser muito problemáticas as declarações do presidente americano, Donald Trump, sobre o ataque norte-americano e israelita contra o Irão. O seu discurso vitorioso parece não coincidir com mais uma situação no terreno criada por este anti-Midas. Até agora, onde ele meteu as mãos, os resultados foram de utilidade muito duvidosa: deu mais umas fortes estucadas nas bases do Direito Internacional, atirou o mundo para o precipício de uma crise energética, deixou uma Ucrânia cada vez mais à mercê do seu amigo, e talvez seu dono, Vladimir Putin, etc..
Logo nos primeiros dias após o início da “operação militar” norte-americana, quando os líderes iranianos tiveram a infeliz ideia de atacar praticamente todos os países do Médio Oriente, Putin compreendeu, ou talvez tivesse já compreendido há mais tempo, que essa acção não seria um passeio fácil para Trump e que a Rússia tinha uma extraordinária possibilidade não só de voltar à região, mas até de conseguir o alívio das sanções do chamado Ocidente ao sector energético contra o seu país.
Os telefones do Kremlin começaram a tocar e aos auscultadores começaram a ouvir-se a voz dos líderes dos países do Médio Oriente. Neste caso, tal como com a chamada telefónica de Trump a Putin, realizada no final do dia de segunda-feira, a propaganda russa sublinhou que os telefonemas foram sempre iniciativa de outros que não do ditador russo. “Tipo, salva-nos, estamos a morrer” – regozijam-se os propagandistas putinistas.
Outro momento importante foi a crise nas relações entre o Irão e o Azerbaijão, depois de um drone iraniano ter caído junto do aeroporto civil de Nakhiytchevan, região autónoma azeri. Correu-se o risco de ver Baku envolver-se no conflito militar contra o Irão, mas, segundo a propaganda russa, o problema foi resolvido por Moscovo com sucesso ao pôr os dirigentes dos dois países a falarem por telefone.
Se as coisas não correrem como Trump anuncia, o que é muito provável, a situação nos países do Médio Oriente poderá desestabilizar-se e pôr em risco alguns dos regimes aí exigentes.
Por essas razões, Donald Trump decidiu telefonar ao seu amigo Putin e este, entre outras coisas, deu-lhe, segundo Iúri Ulianov, assessor do Kremlin para política externa, “conselhos que podem contribuir para terminar o conflito”. Claro que o líder norte-americano lhe poderia ter dito que, no lugar de meter o nariz no conflito entre iranianos, por um lado, e americanos e israelitas, tentasse resolver a guerra na Ucrânia. Mas, se assim foi, porque é que Trump pediu para falar com Putin?, argumenta a propaganda russa.
O conhecido blogger russo Iúri Podolyak considera que o primeiro-ministro israelita Netanyahu foi o culpado de toda esta crise ao arrastar os Estados Unidos para a guerra, “mas se ele não conseguir destruir o processo de paz, então, no final, a Rússia não só irá fortalecer grandemente as suas posições no Médio Oriente, mas também na geopolítica mundial. E, aparentemente, irá livrar-se de algumas sanções americanas”.
Este objectivo do alívio das sanções no que respeita aos combustíveis encontra-se também no centro dos jogos geopolíticos. Putin apresenta-se como um “mensageiro da paz” ao propor aos países europeus petróleo e gás a “preços aceitáveis e atractivos”, acompanhando essa mensagem com mais uma ameaça: se os europeus não aceitarem, ele pode anular todos os contratos com eles até ao fim da sua vigência, ou seja, até 2017, ano em que se prevê que a União Europeia deixe de adquirir combustíveis russos.
No meio disto, a Ucrânia é que irá pagar uma factura pesada por ter decidido resistir à invasão das hordas russas. Se Trump realmente necessitar da ajuda russa para acabar rapidamente com a guerra no Irão, Putin quererá ser retribuído por isso e subir ainda mais a fasquia das exigências territoriais e outras nas conversações com os líderes ucranianos. Além de insistir na cedência pela Ucrânia do Donbass e de outros territórios do Leste ucraniano, Moscovo exigirá que Kiev e a comunidade internacional reconheçam isso de juri.
Até agora Trump tem exigido que a Ucrânia aceite as reivindicações da Rússia para que seja possível chegar à paz entre elas, afirmando que Zelensky não tem “trunfos” para continuar a resistir. Alguns analistas afirmam que o facto de os ucranianos estarem a apoiar os países do Médio Oriente e os Estados Unidos com o envio de drones e especialistas militares poderá contribuir para o aumento dos “trunfos” de Zelensky. Todavia considero que isso não será suficiente para que o narcisista norte-americano mude de posição face à Ucrânia. Não sei se Trump é ou não o agente Krasnov do KGB soviético/russo, mas não duvido que Putin possui fortes alavancas de pressão sobre o seu homólogo norte-americano.
José Milhazes, jornalista e historiador
