Pessoalmente, não acreditava que o Presidente Zelensky cometesse o erro que cometeu ao tentar diminuir os poderes de dois órgãos vitais do combate à corrupção na Ucrânia. Mas, infelizmente, agiu antes de pensar nas consequências desse acto.
O dirigente ucraniano fez a Rada Suprema (Parlamento) aprovar uma lei destinada a colocar dois organismos anticorrupção – o Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e o Gabinete do Procurador Especializado Anticorrupção (SAPO) – sob a supervisão direta do procurador-geral, um nomeado pelo presidente ucraniano.
Essa sua decisão trouxe para a rua milhares de cidadãos nas grandes cidades da Ucrânia que viram nessa decisão uma tentativa de Zelensky pôr fim à luta anticorrupção nas mais altas esferas do poder reforçar o seu poder, pondo em causa o sistema democrático. Alguns manifestaram-se mesmo pela demissão de Zelensky e de Ermak, chefe da Administração Presidencial da Ucrânia.
No ar pairou a ameaça de um novo Maidan, movimento que, em 2004, levou à repetição das eleições presidenciais e, em 2014, ao derrube do presidente Yanukovitch.
A situação complicou-se ainda mais quando organizações europeias e internacionais se manifestaram contra a aprovação do decreto de Zelensky uma tentativa de liquidar a actividade independente no campo da luta contra a corrupção, uma das mais graves chagas em praticamente todas esferas da actividade no país.
Ao que tido indica, organizações como a União Europeia e outros foram apanhados de surpresa, o que levou a grande descontentamento. Bruxelas afirmou mesmo que essa lei seria um sério obstáculo à adesão da Ucrânia à UE.
Durante os últimos três anos, a União Europeia repetiu o mantra “o tempo que for preciso” para reafirmar o seu apoio inabalável e abrangente à Ucrânia na sua luta contra a invasão brutal e em grande escala da Rússia.
A propaganda russa não podia deixar de aproveitar-se dessa onda de manifestações na Ucrânia, pois considera que qualquer divergência nas elites e na sociedade civil russas leva água ao seu moinho. A situação militar das tropas ucranianas é extremamente difícil e poderá agravar-se devido à ofensiva das tropas de Putin, à política irresponsável e muito volátil de Donald Trump e às indecisões dos aliados da União Europeia no que respeita ao fornecimento de armas mais modernas e com maior poder de alcance. Os problemas com o fornecimento de baterias de defesa anti-aérea “Patriot” são exemplo disso. Muitas palavras e poucas acções.
O dirigente ucraniano, perante a contestação à lei, rapidamente reconheceu o erro, explicando-o com o facto de estar mergulhado na questão mais importante: a defesa do seu país da invasão russa. Além disso, agradeceu aos ucranianos por estarem atentos à situação no país e apelou ao diálogo.
Por isso, ele elaborou um projecto-lei que, no fundo, restabelece as normas anticorrupção previstas na lei contestada. Em nome do combate contra a influência e infiltração dos serviços secretos russos no NABU e SAPO, a nova redacção da lei prevê que os agentes destas instituições serão sujeitos periodicamente a um controlo através de detectores de mentiras.
O número de manifestantes parece ser cada vez menor depois desta cedência do Presidente. Resta saber se acabam aqui as consequências deste passo falso de Volodymir Zelensky. Foi o primeiro, mas muito importante sinal da sociedade ucraniana.
José Milhazes, historiador e jornalista
