
Volodomyr Zelenski atravessa presentemente um dos períodos mais complicados da sua presidência: as tropas russas ameaçam cidades estratégicas como Pokrovsk ou Kupiansk no Donbass; as dificuldades de mobilização de soldados aumentam; são cada vez mais as cidades, vilas e aldeias sem energia eléctrica e aquecimento e a corrupção chega às mais altas esferas do poder em Kiev.
A queda de Pokrovsk e Kupiansk poderá estar para breve, embora não arrisque a apontar uma data exacta, pois há muito que as chefias militares russas vêm dizendo que já “controlam”, “cercaram totalmente” essas cidades, etc.
Mas se tal acabar por acontecer, as consequências políticas e militares poderão ser muito pesadas para o Presidente e o povo ucranianos. Os adversários políticos de Zelenski irão exigir explicações caso seja enorme o número de soldados ucranianos feitos prisioneiros pelos invasores ou por que razão é que as chefias militares e políticas não retiraram atempadamente os soldados da frente.
A Rússia canta vitória e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, numa entrevista a órgãos de comunicação russos, volta a apresentar mais uma vez as exigências de Putin: entrega da Crimeia e mais quatro regiões da Ucrânia, desmilitarização desse país, a garantia de que Kiev não aderirá à NATO; “a garantia dos direitos dos russos e russófonos”, da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo e desnazificação da Ucrânia. Deste modo, o chefe da diplomacia russa regressa ao palco político, mas mais contido em relação à Casa Branca: ele pediu a continuação do diálogo entre Moscovo e Washington.
Se a Rússia tiver êxito na forte ofensiva militar actual, o ditador Putin espera que Zelenski fique desacreditado perante Trump e os dirigentes europeus e que a sociedade ucraniana, cansada de mais de três anos de guerra, avance para o derrube do Presidente Zelenski.
Para isso poderão contribuir também os casos de corrupção nas mais altas esferas de poder. Na terça-feira, as autoridades anticorrupção da Ucrânia
revelaram suspeitas contra oito envolvidos no caso do desvio de recursos na “Energoatom”, empresa nuclear estatal responsável pelo fornecimento de energia eléctrica, incluindo a construção da proteção dos alvos energéticos contra ataques russos.
Este caso é particularmente grave se se tiver em conta que os acusados de corrupção são homens das mais altas estruturas do poder e pelo menos um antigo sócio de Zelenski. O Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e a Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAP) suspeitam desses crimes, em particular, o ex-vice-primeiro-ministro Aleksei Chernyshov e Timur Mindich — co-proprietário do estúdio “Kvartal 95”, onde Zelensky trabalhou anteriormente. Além desses, conforme a declaração do procurador da SAP, feita na terça-feira, no Tribunal Superior Anticorrupção, também é acusado do desvio do dinheiro público o actual ministro da Justiça, ex-ministro da Energia Herman Halushchenko.
Cinco dos oito oficialmente suspeitos foram detidos e, na terça-feira, o Tribunal Superior Anticorrupção escolheu a prisão preventiva como medida cautelar para eles. Mindich, o cérebro da operação, conseguiu deixar a Ucrânia, enquanto que Chernyshov ainda não foi detido.
Conforme declarou o NABU na véspera, os participantes do esquema de corrupção desviaram cerca de 100 milhões de dólares em “luvas”, por cada contrato entre a estatal “Energoatom” e os empreiteiros privados, eles recebiam de 10 a 15% do valor do contrato..
Na noite de terça-feira, o NABU divulgou novos pormenores e, em particular, afirmou que o ex-vice-primeiro-ministro Chernyshov recebeu, no âmbito desse esquema, mais de 1,2 milhão de dólares e quase 100 mil euros em dinheiro.
Zelenski reagiu exigindo que este processo vá até ao fim. Porém, segundo alguns observadores políticos ucranianos, poderão vir ao de cima nomes ainda mais sonoros como o antigo ministro da Defesa e actual dirigente do Conselho de Segurança da Ucrânia: Umarov, ou mesmo a primeira-ministra Yulia Svyrydenko.
É sabido que o corrupção é uma das mais graves chagas sociais da sociedade ucraniana e parece ter aumentado ainda mais em tempo de guerra.
O Kremlin está atento pois espera que este processo possa contribuir para o descrédito do Presidente Zelenski aos olhos de norte-americanos e europeus, frisando que o dinheiro roubado vem dos impostos dos ocidentais . O mesmo faz a posição interna e externa ucraniana.
José Milhazes, historiador e jornalista
