Parceiros desiguais
Os dirigentes russos continuam a cantar vitória e a culpar os países ocidentais de todos os males. Porém, esta retórica é posta em causa pelos próprios cidadãos russos que se sentem cada vez mais afectados pela guerra de Putin contra a Ucrânia e compreendem que a Rússia poderá não vencer a contenda.
Embora de forma cautelosa, para evitar a repressão putinista, os bloggers militares pró-guerra criticam a falta de resultados da visita do ditador Putin à China e mostram-se mais e mais desiludidos e irritados com as autoridades russas.
O Kremlin desenhou enormes perspectivas face ao encontro de Putin e Xi Jinping, fazia lembrar mais um encontro entre Estaline e Mao, mas os resultados reais das negociações ficam muito aquém delas.
O bloguer militar Alexei Jivov assinalou a falta de progressos no projeto de construção do gaseoduto “Força da Sibéria 2”. O problema parece estar no preço a pagar pelos chineses pelos fornecimentos de gás natural russo. Se antes Pequim já tinha conseguido elevados descontos, agora quer ainda mais, o que deixa passar a ideia de desigualdade entre os parceiros.
O canal da rede Telegram “Komissar Ischezayet” ( O Comissário Desaparece) escreve sobre o risco de a Rússia se tornar o “irmãozinho mais novo” da China e critica a abertura excessiva do mercado russo aos produtos chineses. Um exemplo flagrante é a ruína quase total da indústria automóvel russa face à invasão de carros chineses.
O canal “Rybar” chama a atenção para a posição ambivalente de Pequim: a China, segundo os seus autores, mantém simultaneamente laços económicos com a Rússia e fornece à Ucrânia componentes para a produção de drones. O principal objectivo da China, de acordo com esta lógica, é obter recursos energéticos russos a baixo custo e conseguir escoar produtos baratos.
Os autores do canal “Dois Majores” apresentam uma avaliação mais moderada dos resultados da visita. Para estes, a manutenção dos canais de importação paralela continua a ser fundamental. Já propagandistas pró-Kremlin não se cansam de sublinhar “o simbolismo geopolítico da visita”, “a amizade eterna entre russoa e chineses”, o “pânico ocidental” e o “colapso do mundo unipolar”, a “vitória” de Putin sobre Trump no campo internacional. No entanto, mesmo no seio das elites russas, esta retórica é cada vez mais percebida como distante da realidade e uma mera colecção de “palavras convenientes para o momento”.
A situação é tão dramática que Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, afirma: “A China está verdadeiramente preparada para envidar esforços com vista a ajudar a realizar uma solução pacífica para o conflito na Ucrânia. Estamos gratos aos nossos amigos chineses”. Agora que o presidente norte-americano Donald Trump se mostrou incapaz de humilhar e vergar os ucranianos, o “camarada Xi” aparece como uma tábua de salvamento. Dias antes, o mesmo Peskov afirmou que o tema da Ucrânia esteve ausente das conversações.
A mais de quatro anos do início da guerra, a sociedade russa começa a mergulhar numa fase de profunda desilusão face a Putin, obrigando o Kremlin, por exemplo, a alterar os métodos de realização de sondagens. Parte das sondagens realizadas por telefone passa a ser feita “pessoalmente”, o que faz com que os respondentes tenham receio de se manifestarem contra a governação putinista.
Venha a bomba atómica!
Inicialmente, a comunidade pró-guerra Z formou-se como um dos motores de mobilização. Em 2022, muitos dos seus membros apoiaram incondicionalmente a política expansionista e imperialista do Kremlin, esperando uma demonstração de força da Rússia e o surgimento de uma ordem social mais justa. Quatro anos depois, as expectativas de esmagar completamente a Ucrânia e os ucranianos estão a ser substituídas pelo cansaço, a apatia e a uma sensação de inutilidade do que está a acontecer.
Este sentimento alastra entre os nacionalistas e os neo-nazis russos que veem que os esforços militares não conduziram a vitórias estratégicas enquanto o próprio Estado, controlado por sectores de segurança e por parte das elites, continuou a não responder condignamente aos anseios da sociedade. Notamos uma sensação crescente de que a Rússia se vê cada vez mais isolada internacionalmente, perde posições no antigo espaço soviético da Ásia Central e do Cáucaso.
Mas, no lugar de dar ouvidos a críticas reais, Putin opta por reduzir ainda mais as liberdades políticas através do controlo total da Internet, do aumento de presos políticos, repressões e torturas. Chega-se ao cúmulo de o Supremo Tribunal da Rússia publicar uma lei que determina que os pescadores russos não podem consumir o peixe que pescam nas embarcações, mas devem trazê-lo todo para terra. Isto seria motivo para risota não fosse tratar-se de um assunto sério.
Isto não significa, porém, a paragem de combates pela linha da frente, como propõem os ucranianos. A extrema-direita nacionalista incita o poder a empreender ataques ainda maiores e, vendo que isso já não é possível com armas convencionais, apelam ao emprego de armas nucleares. Putin terá muita dificuldade em recorrer a esse tipo de armamento porque arrisca-se a ficar ainda mais isolado no plano internacional, transformaria o seu país num estado pária, mas a pressão é um facto.
Crueldade só gere crueldade ainda maior
No dia 22 de Maio, o ditador russo lamentou os mortos e feridos num bombardeamento de um prédio em Starobilsk, localidade situada no território ucraniano ocupado pelas tropas russas, que Moscovo atribui ao exército ucraniano. Putin considerou o ataque a uma residência estudantil, que vitimou também crianças, de “acção nazi”. Porém, as autoridades militares ucranianas refutam esse acusação.
Claro que a opinião publica mundial deve condenar esse tipo de acções e exigir que seja feita uma investigação exaustiva do sucedido. Mas, independentemente dos resultados, Putin deve compreender (o que parece impossível) que estas e outras acções são provocadas pela sua política desumana, onde a vida humana não vale nada, mesmo nada.
José Milhazes, historiador e jornalista
