Durante décadas, o prazer de condução foi associado a elementos quase instintivos: o som de um motor a subir de rotação, a resposta mecânica de uma caixa bem escalonada, a vibração que atravessa o volante, o momento em que chassis, travões e pneus parecem falar a mesma língua. Com a transição para o automóvel elétrico, parte desse imaginário mudou. E, com ele, mudou também a forma como se define performance.
É precisamente nesse território que a Polestar e o SDG Impact Lab da Universidade de Oxford decidiram entrar. A marca sueca de automóveis elétricos e a instituição britânica anunciaram o lançamento de um estudo-piloto que pretende perceber se o prazer de condução pode ser definido, observado e medido cientificamente. A investigação decorre entre 9 de março e 31 de julho de 2026 e terá testes em pista no circuito Gotland Ring, na Suécia, durante o mês de junho. Os resultados deverão ser apresentados no outono, num evento na Universidade de Oxford.
A proposta é ambiciosa: analisar respostas fisiológicas, cognitivas e comportamentais de participantes ao volante de um Polestar de alta performance. Em vez de olhar apenas para números tradicionais (aceleração dos 0 aos 100 km/h, velocidade máxima ou potência declarada) o estudo procura compreender o que acontece no cérebro e no corpo quando um condutor sente que está, de facto, a gostar de conduzir.

Para isso, a investigação reúne competências de Engenharia e Psicologia Experimental. Seis Innovation Fellows, todos a realizar doutoramentos na Universidade de Oxford, foram recrutados para trabalhar como uma equipa multidisciplinar, apoiada por académicos seniores da universidade e pela experiência técnica da Polestar no desenvolvimento de automóveis elétricos.
A questão é particularmente relevante num momento em que muitos elétricos já oferecem acelerações impressionantes, por vezes ao nível de superdesportivos de há poucos anos. Mas essa abundância de binário imediato também tornou menos diferenciadora a aceleração em linha reta. A verdadeira pergunta passa a ser outra: depois do primeiro impacto, o que mantém um automóvel interessante?
É aqui que a Polestar quer posicionar a sua visão de performance. A marca defende uma abordagem mais holística, em que a experiência ao volante resulta da interação entre vários fatores: resposta da direção, comportamento da suspensão, capacidade de travagem, controlo de tração, afinação dos pneus, equilíbrio da plataforma e até a forma como o condutor percebe todos estes elementos em conjunto.

O Polestar 5 surge neste contexto como o exemplo mais recente dessa ambição. O Grand Tourer de quatro portas assenta na Polestar Performance Architecture, uma plataforma em alumínio desenvolvida para reduzir peso e melhorar a precisão dinâmica. A marca destaca também o desenvolvimento específico de sistemas de tração, suspensão, travagem e pneus, todos orientados para criar uma experiência de condução mais rica do que a simples entrega instantânea de potência.
A ideia não é negar o valor da performance pura, mas alargar a sua definição. Num automóvel elétrico, a ausência do som de combustão obriga os fabricantes a trabalhar outras camadas de envolvimento. O silêncio pode ser uma oportunidade, não uma limitação. A resposta instantânea dos motores elétricos, a liberdade de arquitetura proporcionada pelas baterias e a possibilidade de afinar eletronicamente inúmeros parâmetros abrem novas formas de criar ligação entre condutor e máquina.

Para a Universidade de Oxford, o projeto representa também uma oportunidade de aplicar conhecimento académico a um desafio real da indústria automóvel. O Professor Alexander Betts, Pro-Vice-Chancellor e cofundador do Oxford University SDG Impact Lab, sublinha que a colaboração com a Polestar permite transformar investigação científica em conhecimento capaz de influenciar a inovação futura.
O estudo poderá ainda ter uma dimensão mais ampla. Ao tentar compreender como os consumidores percecionam a performance dos veículos elétricos, a investigação pode ajudar a acelerar a aceitação da mobilidade elétrica. Se o automóvel elétrico deixar de ser visto apenas como uma escolha racional, sustentável ou fiscalmente conveniente, e passar a ser também entendido como uma fonte legítima de prazer, a transição energética ganha um argumento emocional.
Artigo por Rui Reis

