
Enganam-se aqueles que consideram que a Cimeira Trump-Putin não teve resultados palpáveis.
Há primeira vista, a Cimeira do Alasca pode ser considerada uma daquelas reuniões onde pouco ou não se decidiu. Porém, não é assim. Foi decidida muita coisa, nomeadamente o destino da Ucrânia e confirmada a fraqueza do dirigente norte-americano na solução dos graves problemas mundiais.
A propaganda do Kremlin está eufórica, porque, segundo ela, Vladimir Putin conseguiu tudo o que queria e mais alguma coisa. Os rostos e os discursos de Putin e Trump na tão apregoada conferência de imprensa falam por si. O dirigente norte-americano perdeu a fanfarrice e não cantou efusivamente vitória como é habitual.
Até o jantar teve de ser suprimido bruscamente, o que permitiu também a Trump fugir a toda a pressa da cimeira e regressar a Washington. Ao mesmo tempo, Putin prestava homenagem aos pilotos soviéticos que morreram no Alasca depois da Segunda Guerra Mundial e encontrava-se com o chefe da Igreja Ortodoxa local, um dos poucos sinais da passagem russa pelo Alasca.
Um dos principais êxitos de Putin foi ter conseguido o regresso da Rússia à cena internacional. E aqui não se pode deixar de referir que não foi por acaso que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, chegou à cidade de Anchorage trajando uma camisola que exibia em letras bem legíveis: CCCP, ou seja, a sigla de União das Repúblicas Soviéticas. Tratou-se claramente de uma forma de mostrar ao mundo que a URSS, ou mais propriamente, a sua política externa, estava de volta. À bruta!, como os actuais líderes ditatoriais que ocupam o Kremlin de Moscovo pretendem.
Além disso, há sinais de que Putin “comeu” Trump com a mesma satisfação com que se come caviar preto com champanhe! O dirigente dos EUA aceitou juntar-se a Putin na definição do futuro calendário das conversações de paz com Zelensky: se este exige, primeiro, a consecução de um cessar-fogo seguido de conversações, Trump vem agora dar razão ao seu amigo Putin que defende exactamente o contrário: primeiro, conversações e, só depois, cessar-fogo. Ou seja, dar o tempo necessário ao ditador russo para esmagar completamente a Ucrânia.
Foi esta uma das razões que levou Trump a retirar aos jornalistas o direito a perguntas. Além de ele não fazer o show vaidoso e pindérico do costume, havia o risco real de poder começar a “patinar” e entrar em discussão com Putin.
(Os dirigentes europeus ficaram mais descansados quando souberam que Trump iria ser acompanhado por Marc Rubio e Steve Witkoff no encontro com Putin, mas de nada valeu).
É verdade que, a fim de não perder completamente a face, o líder norte-americano prometeu um encontro com Volodomyr Zelensky na segunda-feira, em Washington, mas esse encontro nada promete de bom. Trump certamente irá aproveitar a oportunidade para obrigar o seu homólogo ucraniano a “engolir a pílula azeda” das cedências territoriais.
O fim da Ucrânia?
A julgar pela primeira reacção de Zelensky ao conluio de Trump e Putin, o dirigente ucraniano irá dar luta.
“As Forças Armadas da Federação Russa podem tentar nos próximos dias intensificar a pressão e os ataques contra as posições ucranianas com o objetivo de criar circunstâncias políticas mais favoráveis” , declarou ele, e precisou: “Estamos a registar os movimentos e preparativos das tropas russas. Claro, vamos resistir – se necessário, até de forma assimétrica”.
Para que consiga conter o inimigo, o exército ucraniano precisa de um apoio militar europeu mais operativo e forte, mas é de recear que os líderes europeus não consigam isso, pois receiam pelos seus cargos e pelo fim da aliança com os EUA, coisa que já não existe. Esta incompetência e hesitação não permitiu prestar um eficaz apoio militar aos ucranianos logo no início da guerra, quando as tropas russas sofriam de várias carências e falta de organização.
Todavia, águas passadas não movem moinhos e, agora, resta apenas evitar a capitulação humilhante da Ucrânia perante a ditadura expansionista russa. Sejamos realistas, já não se trata da vitória ucraniana, mas da travagem do avanço das hordas invasoras.
Se Zelensky aceitar ceder territórios ao Kremlin, não duvidamos que as forças da oposição, desde aquela que se diz pró-europeia até à mais radical, irão acusá-lo de traição e correrem com ele do poder. Isso poderá dar início a um perigoso período convulsões políticas e sociais. E se tal acontecer, o país poderá desintegrar-se ou cair na zona de influência de Putin.
Recordamos que Putin quer toda a Ucrânia submissa e controlável, mais uma Bielorrússia nas suas fronteiras.
José Milhazes, jornalista e historiador
