
A julgar pelo número de propostas e contrapropostas de paz para o conflito ucraniano, poderíamos concluir que o fim da invasão da Rússia está ao virar da esquina. Mas esta aparência não tem nada a ver com a realidade. A guerra está para durar.
Estou a escrever este artigo analítico antes do encontro do ditador russo Vladimir Putin com Steve Witkoff, enviado especial de Trump para o Médio Oriente e Jared Kushner, que apenas se conhece como genro do líder norte-americano. Este encontro visa ouvir da Rússia uma contraproposta às iniciativas de paz acordadas pelos Estados Unidos e a Ucrânia.
Convém desde já assinalar que o acordo ucraniano-americano não apresenta uma proposta única face aos três principais obstáculos na via da assinatura de um plano de paz para a Ucrânia, a saber: a retirada das tropas ucranianas de todo o Donbass; a redução do número de efectivos militares ucranianos e a renúncia de Kiev à adesão à NATO.
Por isso, é impossível prever qual a “fórmula mágica” que encontrarão os participantes da reunião no Kremlin, que alguns consideram ser fulcral para atingir um cessar-fogo, pois esses obstáculos constituem “linhas vermelhas” apresentadas tanto por Moscovo, como por Kiev.
Contribui também para o fracasso das conversações o facto de Vladimir Putin, num encontro na véspera com o comando militar russo, ter avançado com novas exigências: a criação de zonas de segurança nas regiões ucranianas de Kharkiv, Sumy e Chernigov.
Como se costume dizer, “o apetite vem com a comida”.
Além de tudo isso, Putin deu a entender que a Rússia está a ter “êxitos em toda a linha da frente” e, por isso, ordenou “garantir o fornecimento de bens às tropas russas para o inverno” e “aumentar a pressão em todas as frentes. O recado parece evidente.
Apostas do Kremlin
Está claro que o ditador russo aposta na implosão interna na Ucrânia, esperando que os escândalos de corrupção nas mais altas esferas do poder; as dificuldades no recrutamento de novos soldados; os desaires das tropas ucranianas no campo de batalha, a falta de energia eléctrica nas casas dos ucranianos devido aos bombardeamentos selvagens das tropas russas obriguem os ucranianos a renderem-se e a submeterem-se à ditadura russa.
Do lado de Kiev, uma das esperanças é que a economia russa colapse e que o império se desintegre, como aconteceu com a União Soviética em 1991.
Mas isto são apenas hipóteses. É verdade que estamos perante uma “guerra de exaustão”, mas penso que é precipitado, pelo menos por enquanto, fazer apostas sobre qual será a parte que vai ceder.
Dores de cabeça de Zelensky aumentam
No plano interno, Volodomyr Zelensky, Presidente da Ucrânia, está realmente numa situação muito difícil. A oposição acusa-o de “tiques autoritários” e exige a formação de um governo de unidade nacional com a participação de “todas as forças políticas patrióticas”.
Aumentam também as vozes dos que exigem de Zelensky que não ceda à pressão dos Estados Unidos e da Rússia para que assine documentos prejudiciais à soberania e integridade territorial da Ucrânia. É crescente o número de soldados e oficiais ucranianos que ameaça não cumprir as ordens do Presidente caso este aceite ceder territórios, principalmente os que ainda não estão ocupados pelas hordas russas.
No plano externo, o fracasso deste ciclo de conversações pode levar os Estados Unidos ou ao reforço das sanções contra a Rússia, ou a afastar-se do processo de paz e suspender os fornecimentos de armamentos e informações às tropas ucranianas.
Se se concretizar a segunda previsão, ela agudizará a já difícil tarefa dos ucranianos na linha da frente, devendo os países europeus reforçar o apoio militar e outro à Ucrânia. Aqui convém frisar que, neste momento, os ucranianos não ficam emocionados com contratos futuros com países europeus sobre o fornecimento de armas pela Europa, mas querem ajuda imediata e concreta. Se não a receberem, eles prometem combater contra a Rússia mesmo que seja “só com pedras”.
A carga de ódio entre ucranianos e russos, provocada por Putin e pela invasão russa da Ucrânia é enorme e serão precisos séculos para acabar com ela. “A Mais Breve História da Ucrânia” mostra isso.
José Milhazes, historiador e jornalista
