
Tuvalu fez-se ouvir na COP30. O ministro Maina Talia pediu ao mundo que enfrente a realidade que o seu país já vive todos os dias: o risco permanente de desaparecer sob o mar, um cenário que descreve como “uma realidade vivida”. O alerta foi lançado na cimeira do clima em Belém, num apelo direto a quem ainda duvida das alterações climáticas.
Imagine estar num local fustigado por uma forte chuvada e recear uma inundação. Agora imagine viver num país onde essa ameaça é permanente. Mesmo quando não chove. É assim a vida em Tuvalu, um arquipélago do Pacífico, com 26 quilómetros quadrados, pouco mais de dois metros de altitude, sem montanhas nem rios, onde vivem cerca de 10 mil pessoas. E é essa experiência diária – e inevitável – que o ministro do Interior, Alterações Climáticas e Ambiente, Maina Talia, levou esta semana à COP30, em Belém, no Brasil. Falando a jornalistas portugueses, em declarações recolhidas pela Lusa, Talia foi direto ao ponto: “Para nós, [as alterações climáticas] são uma realidade vivida. E se alguém disser que não acredita nas alterações climáticas, eu convidá-lo-ia a vir ficar comigo em Tuvalu e ver quão corajoso consegue ser perante essa realidade”. O ministro não mencionou nomes, mas respondia às declarações de Donald Trump, que já descreveu a crise climática como “a maior farsa do mundo”.
Quando o mar entra por cima… e por baixo
Tuvalu vive um fenómeno particularmente cruel. Não é apenas a subida das águas. É a infiltração que vem de todos os lados. Segundo Talia, citado pela Lusa, “o mar está a borbulhar do subsolo e também a entrar pelos lados. E como não há para onde subir, torna tudo ainda mais difícil. A maior parte das ilhas de Tuvalu são apenas tiras de terra”. A questão, admite, é simples e devastadora: “Quanto tempo temos até termos de nos realocar?” As previsões apontam para um cenário dramático: se nada mudar, Tuvalu poderá ser o primeiro país a ficar submerso, dentro de aproximadamente 50 anos. Perante este cenário, mais de um terço da população já pediu “vistos climáticos” para emigrar para a Austrália.
“Lutamos até ao fim”
Talia insiste que Tuvalu não desistirá. “O que nós, como políticos, estamos a fazer é lutar até ao fim”, disse à Lusa. E dispara com uma frase dura: “O nosso contributo para a questão das alterações climáticas é de 0,00001%, praticamente nada, e, no entanto, estamos a sofrer o custo dos países emissores. É muito injusto e inaceitável”. Este responsável governativo defende também que a crise climática é, acima de tudo, um tema moral: “As alterações climáticas devem ser encaradas sob uma lente moral. (…) Para nós, é sobrevivência. Para o Ocidente, é economia.”
Recado a Trump
Se na intervenção recolhida pela Lusa Talia evitou referir Trump diretamente, noutros momentos da COP30 decidiu fazê-lo com todas as letras. Segundo o The Guardian, o ministro de Tuvalu foi um dos poucos delegados a chamar o ex-presidente norte-americano pelo nome perante a plateia: Donald Trump, disse, mostrou um “desprezo vergonhoso pelo resto do mundo” ao retirar os EUA do Acordo de Paris. E reforçou, perante líderes e diplomatas: “Não podemos permanecer em silêncio enquanto as nossas ilhas estão a afundar. (…) O que importa para nós é a nossa sobrevivência”. Talia lembra que o seu país já foi diretamente afetado pela política externa norte-americana: “A administração Trump já cortou financiamento para adaptação climática em Tuvalu”. E descreveu ter visto o discurso de Trump na ONU em setembro, considerando-o “entretenimento”. “O presidente está a impor sanções, taxas – e nós não temos nada para negociar com os EUA. Isto é uma crise moral.”
Uma cimeira dominada pelo ausente
Trump não enviou qualquer delegação oficial para Belém, mas paira sobre a COP30 como uma sombra política. Delegações partilham receios, discretamente, de represálias económicas caso se oponham às posições de Washington – uma realidade citada por vários negociadores ao The Guardian.
Talia lembra que Tuvalu – um conjunto de ilhas que mal aparece nos mapas – será um teste global à coragem política.
