
Trump não admite que algum país ou personalidade ousem dizer-lhe não, mas começa a ter cada vez menos sorte à medida que vai revelando as suas paranóias no cargo de Presidente do Estado Unido. O Irão bateu-lhe o pé e o Papa Leão XIV também reagiu adequadamente aos insultos vindos da Casa Branca.
Numerosos analistas recordaram o seguinte episódio da vida de Iossif Estaline,ditador que governou, com braço de ferro, a União Soviética entre 1924 e 1953. Nas suas memórias, “Como Me Tornei Intérprete de Estaline”, o tradutor do ditador, Valentin Berezhkov, descreve uma conversa entre Estaline e Churchill em 1944. A guerra estava em pleno andamento, as questões precisavam de ser resolvidas e o primeiro-ministro, no seu habitual estilo cáustico, tentou desviar a conversa do assunto durante muito tempo:
“…A Grã-Bretanha entrou nesta guerra por causa da liberdade e independência da Polónia. Os britânicos sentem uma responsabilidade moral para com o povo polaco e os seus valores espirituais. É também importante que a Polónia seja um país católico. Não devemos permitir que os acontecimentos internos aí compliquem as nossas relações com o Vaticano…”, declarou Churchil.
A resposta direta de Estaline desconcertou Churchill.
“E quantas divisões tem o Papa?”.
Terminou assim a conversa entre eles sobre o futuro da Polónia.
Talvez Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, tenha ouvido alguma conversa sobre o tema e tentado repetir a “façanha” de Estaline com o Vaticano, mas enganou-se na avaliação da sua verborreia e poder a nível internacional.
Falhou no ataque massivo contra o Irão, mas continua a chantagear o regime de Teerão com discursos cruéis, megalómanos e narcisistas. Não há dúvida que os dirigentes iranianos são tiranos que reprimem o seu povo mártir. Porém os Estados Unidos não têm legitimidade para impor um regime, mesmo que “democrático”, a outros países.
Outro erro crasso de Donald Trump foi o seu conflito com o Papa de Roma, Leão XIV. O líder norte-americano continua a pensar que ele é o líder supremo da Humanidade. Que o diga a publicação por ele da foto em que se compara a Jesus Cristo. Isto é o cúmulo do narcisismo e do mau gosto do líder do mais forte país do mundo.
O que não esperava era que algum líder ousasse reagir criticamente à sua política externa, principalmente de um cidadão norte-americano. A sua personalidade, claramente instável do ponto de vista psíquico, não o deixou ver o verdadeiro poder e influência de Leão XIV.
No dia 31 de março, em conversa com jornalistas quando saía do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, o posicionamento de Leão estava em consonância com o discurso da Igreja Católica: pedia a paz, defendia a defesa da dignidade humana e reforçava a necessidade de que as partes procurassem sentar-se à mesa de negociações.
No entanto, vaticanistas e observadores notaram uma mudança de tom no discurso papal. Em vez da crítica indirecta, ao falar sobre o problema sem mencionar o nome do chefe de Estado envolvido, o Sumo Pontífice citou claramente Trump.
“Soube que o presidente Trump declarou recentemente que gostaria de pôr fim à guerra. Espero que ele esteja a procurar uma saída. Espero que ele esteja a buscar uma maneira de diminuir a violência e os bombardiamentos, o que seria uma contribuição significativa para eliminar o ódio que está a ser gerado e que aumenta constantemente no Oriente Médio e noutros lugares”, declarou o papa, e acrescentou: “Continuamente fazemos apelos pela paz, mas, infelizmente, muitas pessoas querem promover o ódio, a violência, a guerra.”
Trump não estava à espera de uma declaração tão aberta, esqueceu-se que por detrás de Lev XIV estão mais de mil milhões de católicos em todo o mundo e reagiu com o habitual descaramento: “Eu não quero um papa que ache que está tudo bem tendo o Irão uma arma nuclear. Não quero um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela, um país que enviava enormes quantidades de drogas para os Estados Unidos”.
E continuou: ”Não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos por eu estar a fazer exatamente aquilo para o qual fui eleito, com uma vitória arrasadora”, disse ainda Trump, e acrescentou: “Leão deveria ser grato pois, como todos sabem, ele foi uma surpresa impressionante. Ele não estava em nenhuma lista de papáveis e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano. E acharam que essa seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J. Trump.”
Este voltou à carga para insultar e humilhar o Sumo Pontífico: “O Papa Leão é fraco em relação ao crime e péssimo em política externa” escreveu, instando ainda o chefe da Igreja Católica a “concentrar-se em ser um grande Papa, não um político”
Leão XIV não se retratou e fez saber que não tinha receio de Trump. Um dos católicos extremista da Casa Branca, o vice-presidente JD Vance, veio apoiar o seu “dono”: “Seria melhor que o Vaticano se limitasse às questões de moral, e ao que se passa na Igreja Católica e deixasse o presidente dos Estados Unidos ditar a política pública americana”.
É interessante ver o que pensam na Rússia sobre este problema. Publicamente, o Kremlin e a Igreja Ortodoxa Russa não comentaram este duelo, mas tudo indica que ficam contentes com mais este lapso grave de Trump.
O analista da agência de informação RIA-Novosti, controlada pelo Kremlin, Kirill Strelnikov, escreve: “O facto é que, aos olhos de Trump, o Vaticano (e não a Igreja Católica) é parte integrante do sistema globalista liberal, que o considera um inimigo mortal. O presidente americano entrou em conflito aberto com o Papa Francisco sobre mudanças climáticas, política de imigração e progresso social, e agora acredita, com razão, que forças hostis a ele estão a explorar a autoridade papal para promover a sua agenda. Por exemplo, o actual Papa tem sido um crítico ferrenho das políticas anti-imigração do governo americano e sente pena dos imigrantes desfavorecidos que não trabalham, não pagam impostos, recebem benefícios sociais com prazer e transformam as cidades “democráticas” que os abrigam em enclaves étnicos com criminalidade desenfreada”.
Na Rússia,o ódio aos católicos e a Leão XIV é uma constante histórica. A Igreja Ortodoxa Russa continua a considerar o catolicismo uma heresia a combater e o Kremlin acusa a União Europeia de destruir os chamados “valores tradicionais”. Além disso, Putin continua a evitar criticar o seu homólogo norte-americano.
P.S. Merecem uma nota especial as declarações de Giorgia Meloni, primeira-ministra de Itália, que ousou considerar as declarações de Trump “inaceitáveis”.
José Milhazes
Historiador e jornalista
