“Até quando vamos tolerar isto?”. Esta é uma das perguntas mais frequentes que os nacionalistas e blogueres militares colocam ao ditador Vladimir Putin. A resposta é extremamente complicada pois o Kremlin tem poucas opções de resposta, além da cA crise de Trump e Putin no Caribe
Os acontecimentos dos últimos dias – a operação dos EUA na Venezuela e a captura de um petroleiro russo em águas internacionais – provocaram uma forte agitação entre os Z-blogueres e políticos russos.
Na sua maioria, eles revelam indignação com a falta de uma reacção dura da Rússia. Alguns apelam mesmo a “atacar” (“com armas nucleares”, “Tomahawks”, etc.) a Ucrânia, os EUA ou a Europa, afundar navios americanos, assassinar Zelensky, etc.
Putin, por seu lado, mantém-se em silêncio, não comentou ainda a captura dos petroleiros. O Kremlin falou muito pouco sobre os acontecimentos na Venezuela, delegando a responsabilidade de se indignar com a “violação do direito internacional” no Ministério dos Negócios Estrangeiros e no representante da Rússia na ONU.
A julgar pelas declarações de Moscovo antes do Ano Novo, naquele momento, os dirigentes russos consideravam que os acontecimentos na Ucrânia estavam a desenvolver-se mais ou menos em consonância com o cenário russo: Trump pressionava Zelensky para que retirasse as tropas do Donbass e, em geral, os EUA continuavam a seguir a “linha de Anchorage”. A continuação dos ataques a alvos energéticos ucranianos e o aumento dos apagões devido a isso, segundo o plano da Rússia, deveriam obrigar Kiev a aceitar as condições de paz exigidas pela Rússia.
Mas, inesperadamente para Moscovo (a espionagem russa no estrangeiro parece ter falhado mais uma vez), aconteceu o rapto de Maduro e, em seguida, a captura do petroleiro russo. Além disso, soaram declarações bastante desagradáveis de Washington contra Moscovo, Trump mostrou-se mais uma vez irritado com Putin e voltou-se a ouvir falar de “sanções dracónicas” contra a Rússia.
No entanto, ainda não está claro se estamos perante uma mudança total na política externa dos EUA e o regresso a uma confrontação dura com a Rússia ou se Trump vai continuar com a sua anterior concepção de pôr fim à guerra na Ucrânia (incluindo obrigar Kiev a retirar as tropas do Donbass ou a renunciar à presença de tropas da NATO no seu território). Tendo em conta o estilo narcisista e as ambições políticas de Trump, podemos estar apenas perante o estilo habitual de pressão e intimidação do líder norte-americano para depois chegar a um “acordo”. Pelo menos, os seus representantes dizem que o objectivo de uma paz rápida na Ucrânia continua a ser o seu objectivo. Além disso, os americanos em Paris não se comprometeram a apoiar as tropas europeias na Ucrânia, se estas forem introduzidas no país (o que põe em causa a sua envio). O que pode indicar que os EUA não vão dar as garantias de segurança que Kiev tanto deseja, mas às quais se opõe Putin.
Kremlin fica-se pela expectativa. Até quando?
Entre tanta indefinição, Moscovo parece ter decidido optar por fazer uma pausa para ver como Trump vai gerir com a questão da Ucrânia. Putin não pretende entrar imediatamente em respostas bruscas para não provocar uma confrontação directa com os EUA (o que o Kremlin está a ser pressionado a fazer de vários lados), arriscando assim enterrar o diálogo com Washington e, por conseguinte, a perspectiva de Trump pressionar Zelensky para obter as condições de paz favoráveis à Rússia.
É de referir que a questão da Ucrânia é mais importante para Moscovo e prioritária em comparação, por exemplo, com a Venezuela.
Uma das respostas que o ditador russo pode dar consiste em aumentar a pressão militar na Ucrânia através de um aumento dos ataques a alvos energéticos ou, por exemplo, tentar liquidar Zelensky ou outros conhecidos dirigentes políticos ucranianos. Esta poderia ser a resposta de Moscovo, tanto mais que já prometera antes uma reacção militar ao alegado”ataque à residência de Putin” (que a Ucrânia nega).
Até agora, o Kremlin tem optado por não recorrer a acções directas contra os EUA, pelo menos enquanto houver esperança de que Trump está disposto a obter concessões de Kiev na questão da Ucrânia. Se estas esperanças desaparecerem (por exemplo, se Trump aprovar condições inaceitáveis para a Rússia para pôr fim à guerra ou impor as sanções anunciadas pelo senador Graham), então pode haver uma “mudança de conceito”. E isso pode acontecer a qualquer momento e mesmo muito em breve.
Crise dos Mísseis de Cuba.2?
A Rússia tem, basicamente, apenas uma alavanca de pressão que pode funcionar contra os americanos. São as armas nucleares. Todas as outras medidas, como tentar acompanhar os navios comerciais com navios de guerra russos ou colocar guardas armados a bordo dos petroleiros da “frota fantasma”, provavelmente não impressionarão muito os EUA, dado o domínio óbvio da Marinha norte-americana no oceano mundial. E, portanto, a única coisa que Moscovo pode fazer em resposta às ações de Washington contra os navios de bandeira russa é apresentar um ultimato a Trump do tipo “se capturar outro navio, vamos lançar um ataque nuclear contra os EUA”.
Porém, fazer ameaças nucleares devido à captura de dois petroleiros, um dos quais se tornou russo através de um procedimento “acelerado”, é claramente exagerado.
Em segundo lugar, se forem apresentados tais “ultimatos do Dia do Juízo Final”, faz sentido à Rússia fazê-los não sozinha, mas com aliados fortes (por exemplo, com a China), para lhes dar maior peso e aumentar a probabilidade de os EUA recuarem. Isto pode ser difícil a curto e médio prazo, mas não pode ser excluído no futuro, uma vez que um bloqueio marítimo por parte dos americanos é uma ameaça existencial tanto para a Rússia como para a China.
Pequim tem um arsenal de meios de influência sobre os EUA muito mais amplo do que Moscovo e não se limita às armas nucleares. Por exemplo, o bloqueio do fornecimento de metais raros. E, provavelmente, se Pequim realmente vir uma ameaça real à navegação nos seus portos. Poderá começar primeiro com o argumento dos “metais raros” e, só depois, se isso não funcionar, poderá começar a discutir o ultimato nuclear com a Rússia.
Em terceiro lugar, mesmo que o Kremlin estivesse disposto a tentar realizar uma “Crise dos Mísseis de Cuba-2.0″(1962) na Venezuela, levando a situação à beira de uma guerra nuclear e, mais tarde, chegando a acordos com os EUA, isso exigiria, no mínimo, que a Venezuela fosse liderada por pessoas como Fidel Castro, e não pelos atuais líderes venezuelanos, sobre os quais circulam rumores persistentes de que já chegaram a um acordo secreto com os americanos. Se assim for, também será problemático transformar a Venezuela numa “Ucrânia” para os EUA – ou seja, envolver os americanos numa guerra prolongada.
Que a História se repita
Aparentemente, os fatores acima mencionados explicam a reacção bastante cautelosa de Moscovo aos acontecimentos.
No entanto, os processos estão a desenvolver-se rapidamente, ganham maior velocidade com a aproximação das eleições parlamentares intermédias nos EUA. É evidente que no círculo de Trump há uma influente ala de “falcões”, que, após o rapto de Maduro, reforçou significativamente a sua posição. Eles consideram que não se deve fazer quaisquer concessões à Rússia nas negociações sobre a Ucrânia. Pelo contrário, devem pressioná-la o máximo possível, até ao ponto de repetir os acontecimentos actuais na Venezuela (neutralização da liderança) ou no Irão (acções de protesto e agitação). Esta posição, como é lógico é partilhada por Kiev e pelos europeus.
Fica-se com a sensação de que a operação para prender Nicolas Maduro e a detenção dos dois petroleiros foram também tentativas de humilhar a Rússia. Por exemplo, logo após a declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo a exigir que os EUA libertassem a sua tripulação detida, a Casa Branca disse que a tripulação seria levada a tribunal.
Porém, se o Kremlin considerar que estão a ser ultrapassadas “linhas vermelhas”, por exemplo, a detenção em massa de petroleiros com petróleo russo, as relações entre Moscovo e Washington podem rapidamente descambar numa espiral descendente e provocarem o risco de uma guerra nuclear, com consequências catastróficas para toda a humanidade.
O mundo avança para situações muito perigosas. Até agora, a História mostrou que as superpotências conseguiram travar no limiar de um conflito nuclear. É das poucas vezes em que podemos desejar que a História se repita.
José Milhazes, jornalista e historiador
