
Nem todos os carros de Fórmula 1 envelhecem da mesma forma. Alguns ficam na memória pelos títulos, outros pelo desenho, outros ainda pelo ruído e pela brutalidade de uma era sem filtros. Este Lotus 98T é diferente. Volta agora ao centro das atenções porque o chassis 98T-3 será colocado à venda num leilão em formato fechado, com uma estimativa entre 9,5 e 12 milhões de dólares, o equivalente a cerca de 8 a 10,5 milhões de euros.
Há uma razão muito concreta para isso. Este foi o carro utilizado exclusivamente por Ayrton Senna nas primeiras oito corridas da temporada de 1986, período em que somou duas vitórias, cinco pole positions e mais três pódios. Foi com este Lotus que venceu em Espanha e em Detroit, e foi também com ele que assinou uma das chegadas mais apertadas da história da Fórmula 1, em Jerez, ao bater Nigel Mansell por apenas 0,014 segundos.

Mas o peso deste carro não se explica só pelos números. O 98T pertence à fase mais feroz da Fórmula 1 turbo, uma época em que a potência bruta e a coragem dos pilotos criavam máquinas quase míticas. Em configuração de qualificação, este Lotus podia ultrapassar os 1.000 cv. A isso junta-se um detalhe que o torna ainda mais icónico: foi o último monolugar da Lotus a vestir a lendária decoração preta e dourada da John Player Special. E não estamos a falar de um exemplar banal, já que apenas quatro chassis foram construídos para disputar a temporada de 1986.
Também o próprio formato da venda ajuda a adensar a aura em torno deste Lotus. Trata-se de um leilão discreto, em que compradores, vendedores e licitantes permanecem anónimos, enquanto cada participante conhece apenas a posição relativa da sua oferta. Num mercado onde a raridade conta, mas a descrição também, este detalhe tem o seu peso.
No fundo, este não é apenas mais um carro histórico a mudar de mãos. É um objeto que carrega uma fase inteira da Fórmula 1 às costas e que continua a dizer muito sobre o que Ayrton Senna representava já em 1986: talento puro, intensidade absoluta e a capacidade rara de transformar máquina e momento em mito. Por isso, mais do que um leilão, o que aqui está em causa é a passagem de uma peça de culto por um mercado onde a memória também tem cotação.
Artigo por Rui Reis


