1 – O Presidente Trump deixou claro que a guerra na Ucrânia deverá terminar até 8 de agosto, declarou John Kelly, Representante Permanente dos Estados Unidos nas Nações Unidas , numa reunião do Conselho de Segurança da organização.Segundo ele, Washington está pronto para tomar medidas adicionais para garantir a paz.
Gostaria que semelhante previsão se concretizasse, mas, como tem sido prática do Presidente Trump, as datas pouco significado têm. Para ele, não custa nada prometer o que quer que seja. O cessar-fogo na Ucrânia dependerá não só e nem tanto do desejo do dirigente norte-americano quanto da vontade de Vladimir Putin de se sentar à mesa das conversações de paz.
Por enquanto assistimos a uma séria picardia entre Trump e Dmitri Medvedev, vice-chefe do Conselho de Segurança da Rússia.
Dmitry Medvedev, o ameaçador verbal do Kremlin, iniciou uma polémica pública com o presidente norte-americano, Donald Trump, após a sua declaração sobre a “economia morta” da Rússia e da Índia e um aviso a Medvedev para que “tivesse cuidado com o que dizia”.
No seu canal de Telegram, o vice-presidente do Conselho de Segurança classificou as palavras de Trump como “uma reação nervosa”, do a quem descreveu como “o formidável presidente dos EUA”, e afirmou que tal reação prova que a Rússia tem razão. “Quanto à ‘economia morta’ da Índia e da Rússia e à ‘entrada em território perigoso’ — bem, que se lembre dos seus filmes favoritos sobre ‘mortos-vivos’ e também de quão perigosa pode ser uma ‘mão morta’ que não existe na natureza”, escreveu Medvedev.
A “Mão Morta”, como é designado o sistema “Perímetro” soviético e russo no Ocidente, é um sistema de controlo automatizado para um ataque nuclear de retaliação massivo. O objectivo é garantir um ataque de retaliação com armas nucleares, mesmo no cenário de destruição completa da liderança militar e dos sistemas de comunicação do país (o dispositivo “Kazbek” e a linha de comunicação das Forças Estratégicas de Mísseis).
Medvedev respondeu desta forma à declaração anterior de Trump que lhe foi dirigida. O chefe da Casa Branca, que anunciou ontem a redução do prazo do seu ultimato ao Kremlin de 50 para 10 dias, escreveu no Truth Social que “o ex-presidente falhado da Rússia está a entrar em território perigoso”. Trump referia-se à publicação anterior de Medvedev na rede social X, onde ameaçava os Estados Unidos com guerra e exigia que não falassem com a Rússia “na linguagem dos ultimatos”.
A escalada, pelo menos verbal, aponta para uma crise nas relações entre os Estados Unidos e Rússia, que se assemelha à “Crise dos mísseis” entre a URSS e os EUA em 1962, quando Humanidade esteve a um passo da catástrofe nuclear.
Por isso, pode colocar-se a questão: até onde irão as trocas de palavras e o “esticar da corda”? Esperemos que Trump e Putin não cheguem ao emprego de armas nucleares, pois ambos sabem as possíveis consequências disso.
Sinceramente, eu não levaria a sério as ameaças de Dmitry Medvedev, pois a última palavra pertence a Putin. Tal como tem acontecido durante esta sangrenta guerra, Medvedev e a escumalha ultranacionalista lançam-se com ameaças, mas depois o ditador russo aparece como o homem que afirma querer conversações e paz na Ucrânia. O mais provável é que Putin apresente mais uma proposta para continuar a guerra ou a apresentar para o cessar-fogo exigências inaceitáveis para a Ucrânia.
Desta vez, além dos avanços militares no terreno, o ditador russo aposta também nas divisões internas nas altas esferas de Kiev.
2- Entretanto, chegam de países ocidentais sinais preocupantes para a oposição russa: Donald Trump entregou aos carrascos russos um militante dos movimentos anti-Putin.
Segundo activistas russos e internacionais dos direitos humanos, Alexey Moskalyov e a sua filha viram o visto humanitário ser-lhes negado pela Alemanha. O programa alemão de apoio aos activistas anti-guerra, políticos e jornalistas foi congelado pelas autoridades alemãs.
Ativistas dos direitos humanos relatam centenas de casos em que pessoas viram a entrada negada. O programa, considerado exemplar até recentemente, está a ser restringido no meio da crescente retórica anti-imigração na Alemanha.
As organizações de defesa dos direitos humanos envolvidas na saída de dissidentes russos contabilizam pelo menos 300 pessoas que não receberam vistos humanitários depois de os terem solicitado. Algumas delas aguardam há vários meses ou até mais de um ano para embarcar para a Alemanha, mas “está tudo em suspenso”.
“O programa alemão é um exemplo. A Alemanha foi líder na proteção daqueles que resistem ao regime de Putin. Agora, quando tais casos já não são aceites, parece que as pessoas estão a ser abandonadas à repressão” (coordenador da iniciativa InTransit).
Um dos que não recebeu o visto e aguarda resposta desde o inverno de 2024/25 é Alexey Moskalyov, pai de uma menina Masha, que fez um desenho anti-guerra na escola. Em 2023, ele foi condenado a dois anos de prisão por “desacreditar as forças armadas” após publicações nas redes sociais. Agora, segundo os ativistas de direitos humanos, ele e a filha estão fora da Rússia, mas ainda não receberam qualquer resposta sobre o visto humanitário, apesar da notoriedade do caso e da discussão pública na União Europeia.
Mas será que o humanismo ocidental se esgotou?
