
Um relatório europeu conclui que vários Estados-Membros estão a falhar no planeamento climático de longo prazo. Portugal até surge como bom exemplo no desenho das estratégias, mas a implementação é incerta e a meta compatível com 1,5 ºC exigiria neutralidade climática já em 2040.
Um relatório europeu acaba de lançar luz sobre uma questão que raramente capta atenções fora do mundo da política ou da ciência: o planeamento climático de longo prazo. A verdade, no entanto, é que este tipo de planeamento diz respeito a todos nós — porque define como vamos viver enquanto humanidade dentro de 20 ou 30 anos.
O estudo, desenvolvido no âmbito do projeto LIFE TogetherFor1.5, analisou dez países da União Europeia e concluiu que a maioria está a falhar no desenho das suas estratégias de longo prazo. O resultado é preocupante: sem um plano consistente, transparente e participativo, dificilmente a Europa conseguirá cumprir o Acordo de Paris ou evitar as piores consequências da crise climática.
Entre os casos estudados, Portugal surge em posição relativamente positiva. O Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 foi construído com participação pública, academia e especialistas independentes — algo raro entre os Estados-Membros. E, ao contrário de outros países, já está em processo de revisão para se alinhar com metas mais recentes.
Ainda assim, como nota a associação ambientalista Zero, o país continua aquém do necessário: planear é uma coisa, implementar é outra. O objetivo de neutralidade em 2050 não está em sintonia com o cenário de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 ºC como definido pelo Acordo de Paris. Segundo os especialistas, a meta deveria ser não 2050, mas 2040. E ainda que esta meta seja mais exigente, ela é, de acordo com os especialistas, tecnicamente viável e até economicamente benéfica, permitindo poupanças de milhares de milhões de euros (no caso de Portugal, permitiria poupar 16 mil milhões de euros).
A Zero entende que é urgente colocar em consulta pública o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2045 (RNC2045) que reflete o compromisso que Portugal, entretanto, assumiu de antecipação da neutralidade climática em cinco anos que, no entender dos ecologistas, é um passo intermédio para” desejavelmente se trabalhar para o objetivo de a atingir no ano de 2040”.
A discussão ganha peso num verão em que os incêndios rurais voltam a destruir florestas, solos e habitats, libertando milhões de toneladas de carbono e corroendo o principal sumidouro natural do país.
Nesse contexto, a Zero afirma que o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2045 deve responder à pergunta de como “assegurar no longo prazo que o esvair para a atmosfera do carbono armazenado e capturado nas florestas, matos e solos, não compromete os objetivos climáticos do país face à destruição deste que é o principal sumidouro de carbono”.
