
Os Estados Unidos lançaram o programa STOMP, com um investimento de 144 milhões de dólares, para perceber como os microplásticos se acumulam no organismo humano e como podem ser medidos e removidos.
O Governo dos Estados Unidos, através do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), lançou o programa STOMP, um projeto nacional com um orçamento inicial de 144 milhões de dólares para investigar como é que os microplásticos se acumulam no corpo humano e desenvolver formas de os medir e remover.
A iniciativa, coordenada pela ARPA-H, sigla para Advanced Research Projects Agency for Health, surge numa altura em que estas partículas já foram detetadas em vários órgãos humanos, incluindo pulmões, placas arteriais e até no cérebro.
Os microplásticos são fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros, resultantes da degradação de materiais maiores. Existem também nanoplásticos, ainda mais pequenos, capazes de atravessar barreiras biológicas com maior facilidade. Entram no organismo através da água, dos alimentos e do ar, o que torna a exposição praticamente inevitável.
Apesar de estarem disseminados no corpo humano, o conhecimento científico continua limitado. A principal dificuldade está na medição: não existem ainda métodos consistentes para quantificar com precisão a quantidade de microplásticos nos diferentes órgãos, o que leva a resultados inconsistentes entre estudos.
É precisamente essa lacuna que o programa STOMP pretende colmatar. Numa primeira fase, o foco estará na medição e compreensão dos mecanismos de acumulação. O objetivo passa por criar métodos padronizados e desenvolver um teste clínico capaz de quantificar a carga de microplásticos no organismo de cada pessoa.
“Não podemos limpar aquilo que não conseguimos medir, e não podemos desenvolver soluções eficazes para impactos que não compreendemos”, é a lógica que sustenta o projeto, segundo os responsáveis da ARPA-H.
Ao mesmo tempo, os investigadores querem perceber como é que estas partículas se distribuem pelo corpo e quais são mais perigosas. Nem todos os microplásticos são iguais, variando em composição, tamanho e comportamento biológico. O programa prevê a criação de um sistema de classificação de risco que permita identificar quais devem ser prioritariamente alvo de intervenção.
Numa segunda fase, o foco passa da análise para a ação. A partir dos dados recolhidos, serão desenvolvidas estratégias para remover microplásticos do organismo, recorrendo a abordagens inspiradas na biologia farmacêutica e na biorremediação.
Os riscos associados continuam a ser objeto de debate científico. Alguns estudos apontam para ligações a inflamações, problemas hormonais, doenças cardiovasculares, alterações reprodutivas e até certos tipos de cancro. No entanto, a relação causal ainda não está totalmente estabelecida.
“Os microplásticos estão em todos os órgãos que analisamos, tanto em adultos como em crianças. Mas não sabemos quais são prejudiciais nem como removê-los”, afirmou Alicia Jackson, diretora da ARPA-H.
A relevância deste tipo de investigação vai além da curiosidade científica. Se forem desenvolvidos testes acessíveis e fiáveis, será possível monitorizar a exposição em larga escala, identificar grupos de maior risco, como grávidas ou pessoas com doenças crónicas, e orientar políticas públicas e decisões industriais.