O primeiro Ferrari totalmente elétrico chama-se Luce, tem quatro motores, cinco lugares, mais de 1000 cv e custa cerca de 550 mil euros. Mas o número mais importante talvez seja outro: 8,4%. Foi quanto a Ferrari caiu em bolsa, em Milão, depois da revelação do modelo mais divisivo da sua história recente.
No papel, o novo Ferrari Luceé um prodígio: quatro motores elétricos, um por roda, bateria de 122 kWh, mais de 530 quilómetros de autonomia anunciada, 0-100 km/h em 2,5 segundos, 0-200 km/h em 6,8 segundos e velocidade máxima acima dos 310 km/h.
Na rua é outra história: um Ferrari de quatro portas, cinco lugares, proporções inesperadas e desenho minimalista, quase como se Maranello tivesse decidido construir o Apple Car que a Apple nunca chegou a lançar.
O nome é perfeito para a intenção: Luce, luz em italiano. Mas a luz, neste caso, encandeou. Em vez de aplausos unânimes, a estreia trouxe desconforto, memes, notas nervosas de mercado e uma pergunta que nenhuma marca como a Ferrari gosta de ouvir: isto ainda é um Ferrari?
A resposta técnica é simples. Sim, é. A resposta emocional é muito mais complicada.

O Luce é o primeiro Ferrari 100% elétrico e inaugura uma fase que a marca vinha a preparar com cautela. A Ferrari já domina a eletrificação parcial há anos, da LaFerrari ao SF90 Stradale, mas uma coisa é usar a eletricidade para amplificar um motor de combustão; outra, muito diferente, é retirar o motor da equação. Num Ferrari, o motor nunca foi apenas uma peça mecânica. Foi altar, assinatura, instrumento musical e argumento de venda.
O primeiro de uma nova era elétrica
Por isso, Maranello tentou compensar o silêncio com engenharia. O Luce usa quatro motores independentes, permitindo uma gestão precisa do binário em cada roda. Tem suspensões ativas, quatro rodas direcionais independentes e um sistema sonoro próprio que amplifica vibrações mecânicas reais, em vez de simplesmente imitar um V8 ou um V12 através de uma banda sonora artificial. A ideia é clara: se o futuro não pode rugir como o passado, pelo menos tem de produzir uma emoção verdadeira.
A colaboração com a LoveFrom, o coletivo fundado por Jony Ive e Marc Newson, colocou a Ferrari num território inesperado. Ive é uma das figuras que definiram a estética moderna da Apple: superfícies limpas, interfaces reduzidas ao essencial, objetos que parecem desenhados para serem tocados antes de serem compreendidos. No Luce, essa escola vê-se no habitáculo, com maior atenção aos comandos físicos do que aos ecrãs omnipresentes, e também na leitura exterior: menos músculo visual, menos drama latino, mais produto tecnológico de luxo.

É aqui que a controvérsia ganha substância. Um Ferrari sempre viveu de excesso controlado. Mesmo quando era elegante, era teatral. Mesmo quando era limpo, havia tensão. O Luce parece querer ser outra coisa: um objeto polido, racional, quase clínico. Um Ferrari com a serenidade de um MacBook e a lógica tátil de um iPhone. Para alguns, isto é visão. Para outros, é heresia.
Até Montezemolo ficou “chocado”
A crítica mais dura veio de quem conhece a casa por dentro. Luca Cordero di Montezemolo, histórico presidente da Ferrari e uma das figuras centrais da era moderna da marca, classificou o novo modelo como uma traição à história do Cavallino Rampante. A frase que ficou foi brutal: esperava que retirassem o cavalo rampante daquele carro. Não é uma crítica de gosto; é uma acusação de identidade.
O mercado também reagiu sem romantismo. As ações da Ferrari cotadas em Milão fecharam a cair 8,4% no dia seguinte à apresentação, enquanto os títulos em Nova Iorque também perderam valor durante a sessão. A leitura foi imediata: o Luce não é apenas um carro novo, é um teste à elasticidade da marca. Quanto pode a Ferrari mudar antes de deixar de parecer Ferrari?

O preço também ajuda a explicar a tensão. Com um valor anunciado em torno dos 550 mil euros na Europa, o Luce entra num território onde não se compra apenas desempenho. Compra-se mito, pertença, raridade e história. O problema é que este Ferrari parece querer seduzir um cliente novo: famílias ultra-ricas, empreendedores tecnológicos, compradores chineses de luxo elétrico, colecionadores para quem o silêncio pode ser tão sofisticado como um V12 a subir de rotação.
Nesse sentido, o Luce talvez não seja feito para substituir o Ferrari tradicional. É feito para abrir uma porta que antes não existia. Tem cinco lugares reais, quatro portas e uma usabilidade que o aproxima mais de um grande GT familiar do que de uma berlinetta de fim de semana. O Purosangue já tinha preparado parte do choque, mas o Luce vai mais longe: é elétrico, é mais silencioso, é mais digital, é mais utilitário na sua arquitetura e menos preso ao imaginário clássico de Maranello.
2,5 segundos dos 0 a 100 km/h
Porque há algo profundamente irónico neste carro. Em termos de prestações, é inequivocamente extremo. Mais de 1000 cv continuam a ser mais de 1000 cv. Um 0-100 km/h em 2,5 segundos continua a ser território de hipercarro. A autonomia superior a 530 km e a bateria de 122 kWh mostram ambição técnica. Mas, num Ferrari, os números nunca bastaram.

Talvez o seu maior pecado seja não parecer perigoso. Não no sentido físico, mas no sentido emocional. Os grandes Ferrari sempre tiveram qualquer coisa de indomável, mesmo quando eram civilizados. O Luce parece controlado, depurado, domesticado pela estética do objeto perfeito. É essa perfeição lisa, quase tecnológica, que irrita os puristas. Um Ferrari não devia parecer descarregado de uma keynote. Devia parecer nascido numa pista, numa oficina, numa obsessão mecânica.
Mas talvez seja precisamente essa a provocação. A Ferrari não está apenas a lançar um elétrico. Está a perguntar se a emoção automóvel ainda pode existir sem combustão, sem escape, sem vibração ancestral. Está a testar se o luxo moderno pode ser silencioso sem ser frio. Está a tentar fazer com a eletrificação aquilo que sempre fez com a combustão: transformá-la numa experiência de desejo.
O Luce pode vir a ser lembrado como um erro de tom. Ou como o momento em que a Ferrari percebeu que preservar uma marca não significa congelá-la. Por agora, é o Ferrari mais incómodo dos últimos anos, talvez o mais controverso da era moderna. Não por ser lento, pouco sofisticado ou tecnicamente fraco. Pelo contrário. O Luce é polémico porque é competente demais para ser ignorado e estranho demais para ser amado sem discussão.
Artigo por Rui Reis

