
A reciclagem de pilhas e baterias em Portugal aumentou 25% em 2025, segundo o Electrão, mas os números escondem uma mudança maior: novas regras europeias estão a transformar estes pequenos dispositivos numa peça estratégica para o futuro energético, tecnológico e até geopolítico da Europa.
O Electrão recolheu e encaminhou para reciclagem 1705 toneladas de pilhas e baterias usadas em 2025, mais 25% do que no ano anterior. À primeira vista, trata-se apenas de um indicador ambiental positivo. Na prática, revela algo mais profundo: as baterias deixaram de ser apenas lixo eletrónico e passaram a ser recursos críticos.
E é precisamente essa mudança de mentalidade que está por trás das novas regras europeias que vão definir o futuro das baterias nas próximas décadas.
Porque é que as baterias passaram a ser estratégicas
Durante anos, pilhas e baterias foram vistas como resíduos perigosos que era preciso eliminar corretamente. Hoje, são encaradas como verdadeiras “minas urbanas”.
Dentro de uma bateria existem matérias-primas essenciais para a economia moderna, como lítio, cobalto e níquel, materiais fundamentais para veículos elétricos, smartphones, computadores e sistemas de armazenamento de energia.
A Europa depende fortemente da importação destes recursos. Recuperá-los através da reciclagem tornou-se, por isso, uma prioridade estratégica.
Como explica Ricardo Furtado, diretor de Elétricos e Pilhas do Electrão: “Estes resultados são fruto do esforço operacional do Electrão, mas constituem também um sinal claro de que Portugal está a posicionar-se para responder ao maior desafio europeu da próxima década — a autonomia em termos de matérias-primas críticas.”
O que mudou com o novo regulamento europeu
O novo regulamento europeu de pilhas e baterias, em vigor desde 2023, introduz uma lógica diferente: olhar para todo o ciclo de vida das baterias, desde a produção até à reciclagem.
Na prática, isto significa três grandes mudanças.
Primeiro, maior transparência sobre a origem das matérias-primas utilizadas, obrigando fabricantes a demonstrar de onde vêm os materiais e como foram obtidos.
Segundo, regras mais rígidas para reduzir impactos ambientais e sociais, incluindo restrições a substâncias perigosas.
Terceiro, metas concretas de reciclagem. A União Europeia quer garantir que 25% das matérias-primas críticas utilizadas venham da reciclagem, reduzindo a dependência externa.
Isto obriga a criar sistemas capazes de identificar, separar e tratar resíduos que antes se perdiam em fluxos comuns de metal ou lixo indiferenciado.
O exemplo das baterias de lítio
As baterias de iões de lítio, presentes em telemóveis, computadores portáteis, bicicletas elétricas e automóveis elétricos, são um bom exemplo desta transformação.
Durante anos, quando eram descartadas incorretamente, os seus materiais valiosos acabavam misturados com ferro, alumínio ou aço, tornando a recuperação praticamente impossível.
Hoje, a reciclagem procura precisamente evitar essa perda. Cada bateria entregue no local certo permite recuperar materiais que voltam à indústria tecnológica.
Ricardo Furtado resume a ideia: “Cada pilha entregue no sítio certo é um gesto pequeno com um impacto enorme. A Europa precisa destes materiais — e Portugal está a provar que faz parte da solução.”
Embora ainda representem apenas 1% do total recolhido, as baterias de veículos elétricos, bicicletas elétricas e trotinetes já começam a surgir nas estatísticas.
Em 2025 foram recolhidas 23,3 toneladas destas baterias, um sinal antecipado do que deverá crescer rapidamente nos próximos anos à medida que a mobilidade elétrica se generaliza, sobretudo nas cidades.
Ao mesmo tempo, as baterias industriais lideraram o crescimento, aumentando 26%, enquanto as pilhas portáteis usadas em equipamentos domésticos cresceram 17%.
Há ainda uma razão menos óbvia para estas regras mais exigentes: segurança. As baterias modernas, especialmente as de lítio, podem representar risco de incêndio quando danificadas ou descartadas incorretamente. A exposição ao calor ou impactos pode provocar curtos-circuitos internos e ignição.
Depositar estes resíduos em locais próprios não é apenas uma questão ambiental, mas também de proteção de pessoas, infraestruras e sistemas de recolha de resíduos.
Portugal conta atualmente com mais de 10.300 pontos de recolha de pilhas e baterias, disponibilizados através da rede Electrão, um aumento de 18% face ao ano anterior.
Todas as lojas que vendem pilhas e baterias são obrigadas a aceitar a devolução destes produtos usados, criando um sistema pensado para facilitar o gesto do consumidor.
