É um péssimo sinal quando a vaidade e a força militar se juntam num dirigente político, principalmente se ele não tem contra-pesos nem em casa, nem no mundo.
(Faço um parentesis para deixar bem claro que não tenho pena do regime ditatorial iraniano e de outros semelhantes, mas defendo o respeito pelos povos. Não se pode impor democracias na ponta das baionetas).
Donald Trump faz o que lhe dá na real gana e destrói todos os princípios do Direito Internacional, criados depois da Segunda Guerra Mundial, que visavam limitar a arbitrariedade e impedir agressões como a que foi desferida pelo ditador Putin contra a Ucrânia ou por Trump contra o Irão. A partir de agora, serão muito mais frequentes as violações das fronteiras e da soberania do Estado.
Quem ousa contrariar os institutos narcisistas do dirigente norte-americano? Ninguém… Os países europeus até podem estar contra a política externa agressiva de Trump, mas os comentários são muito cuidadosos para não ferirem o amor-próprio do ego insaciável.
Quanto à posição da Rússia, o Kremlin foi claramente humilhado uma vez mais. Os acordos de amizade, de cooperação militar e outros assinados por Putin não valem um tostão furado, pois de nada serviu a Ianukovich na Ucrânia, a Assad na Síria, a Maduro na Venezuela, etc. E, pelos vistos, os comunistas cubanos serão os próximos a cair perante a vaidade e o apetite de Trump.
Se compararmos a operação dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão com a actuação das tropas russas na Ucrânia, concluímos que as forças armadas de Moscovo andam pelas “ruas da amargura”. Putin pode ter um dos exércitos mais numerosos do mundo, mas a quantidade pouco significa sem qualidade. Ficou mais uma vez evidente que a ditadura russa, mesmo fazendo dos seus combatentes carne para canhão, não consegue vergar a Ucrânia depois de quatro anos de guerra. E não se espere uma situação semelhante àquela que se registou na Crise dos Mísseis de 1962, quando a União Soviética salvou o regime imposto por Fidel Castro ao povo cubano. A propaganda do Kremlin tenta vender a ideia de que a actual guerra no Médio Oriente, além de aumentar os lucros provenientes dos combustíveis, leva os “países do Sul Global” a aproximarem-se da Rússia, mas sabemos que isso está longe de corresponder à verdade.
Arrisco-me a afirmar que se não fossem as capacidades nucleares russas, se não fosse o apoio interessado e bem recompensado da China a Moscovo, o ditador russo poderia estar numa situação extremamente complicada.
Claro que também a China não ousa irritar Trump, pois o ditador Xi Jinping, inteligentemente, sabe esperar o momento para uma reacção e não se deixa precipitar. A política externa do líder norte-americano, se não for travada no seu próprio país, poderá ter consequências funestas para os EUA e para o seu papel na política mundial.
A Organização das Nações Unidas é outra das vítimas da vaidade do líder americano. Dói ver o estado a que chegou esse organismo internacional, impotente e castrado pelo direito de veto no Conselho de Segurança. A ONU não é reformável e o Conselho da Paz de Donald Trump também não é alternativa.
E para cúmulo do descrédito dessa organização chega a notícia de que Melania Trump vai presidir, pela primeira vez na história da humanidade, a uma reunião do Conselho de Segurança para “enfatizar o papel da educação na promoção da tolerância e da paz mundial”. Qual educação? Qual tolerância? Qual paz mundial? Uma vergonha.
Tenho muito respeito pelas mulheres e não quero fazer comparações que as humilhem, mas esta ida de Melania na ONU faz-me lembrar a história do tirano romano Calígula, que nomeou o seu cavalo senador. Neste mundo desgovernado por loucos, já tudo é possível…
José Milhazes, jornalista e historiador
