Há 25 anos atrás, o submarino nuclear russo “Kursk” afundou-se e, devido à política de secretismo de Putin, ceifou a a vida de mais de cem marinheiros. Foi então que Putin revelou a sua “política humanista” ao responder à pergunta do jornalista da CNN Larry King: “O que aconteceu ao Kursk?”, ele disse com um ar cínico: “Afundou-se!”.
Alguns consideraram que Putin não podia ser mais cínico do que então, mas a história mostrou que, para ele, a vida de milhões de habitantes da Federação da Rússia não vale nada e que pode dispor delas a seu bem prazer.
Isto é mais do que evidente na decisão da invasão da Ucrânia pelas hordas putinistas em Fevereiro de 2022. Putin “virou de pernas para o ar” todo o sistema de relações internacionais e colocou o mundo no limiar de uma guerra nuclear.
Para mal dos nossos pecados, uma parte avançada deste conflito coincidiu com a eleição do narcisista e megalómano Donald Trump presidente dos Estados Unidos. Ou seja, a história repete-se, embora a níveis diferentes – hoje, a Humanidade tem um número suficiente de armas capazes de a destruir completamente -, e, ao ouvir notícias e comentários, parece que nos encontramos novamente nas vésperas da Segunda Guerra Mundial.
À luz deste paralelo, não é difícil prever que a Cimeira do Alasca entre Putin e Trump terminará ou com um acordo semelhante de Munique de 1938, ou com um pacto como o de Ribbentrop-Molotov de 1939, ou com um documento que fará lembrar esses dois crimes históricos juntos.
Como estamos no mundo da informação e nos espectáculos mediáticos a que Trump nos habituou, os resultados serão rapidamente conhecidos, o que torna desnecessária a existência de alíneas ou de artigos secretos.
Tal como nos citados documentos, o problema central da Cimeira do Alasca é o problema dos territórios, do expansionismo soviético (hoje, russo) na Europa.
Vladimir Putin tem objectivos muito concretos: mostrar que o seu país é uma superpotência capaz de resistir a qualquer tipo de pressão interna ou externa; conseguir chegar aos velhos tempos de quando a União Soviética/Rússia participavam na determinação de zonas de influência;
E se alguém duvida que assim seja, tem na Geórgia e na Ucrânia dois exemplos da política descarada do ditador Putin.
As expectativas dos apoiantes de Putin são muito altas. O comentador político pró-Kremlin prevê que: “1. Concordarão sobre os parâmetros para o cessar-fogo; 2. Primeiro será estabelecida uma trégua aérea para ataques às cidades; 3. Também haverá uma trégua no sul, nas regiões de Zaporizhzhia e Kherson; 4. Depois, em alguns dias, pararão as ações de combate na linha de frente no Donbas e ao norte; 5. Em seguida, troca de territórios. A natureza da troca de territórios deve ser discutida no momento em que a trégua aérea já estiver em vigor, mas o cessar-fogo geral ainda não tiver começado; 6. Serão estabelecidas as condições do cessar-fogo: garantias da Europa de não enviar tropas para a Ucrânia durante o cessar-fogo. Isso é certo. E as garantias de embargo ao fornecimento de armas e suspensão da mobilização forçada”.
“Mas Zelensky e a Europa recusar-se-ão a cumprir e exigirão uma nova ronda de negociações com sua participação. E isso fará com que tudo se prolongue”, sublinha Markov.
Algumas figuras estão a manifestar-se de forma mais dura. O filósofo extremista Alexander Dugin afirma que a cimeira pode falhar e que a Ucrânia deve ser punida pela força, e não por tratados. O correspondente de guerra Alexander Sladkov fala sobre a necessidade de controlo total sobre a Ucrânia, incluindo as bases russas ao longo de toda a sua fronteira com a NATO, e insinua que as opiniões pessoais dos membros da comunidade Z (bloggers russos que apoiam a guerra) estão sujeitas a censura.
Quanto aos Estados Unidos, irá desempenhar o papel de conivente com o expansionismo russo, mesmo em nome da consecução da paz no Continente Europeu. Aliás, Trump dá provas de uma “diplomacia rara”: ainda antes das conversações ele já anunciou as cedências da Ucrânia.
No que diz respeito à Europa, esta “continua aos papéis” e pouco ou nenhum peso nas conversões. O dirigente norte-americano apenas quer ver a União Europeia a pagar os armamentos por ele fornecidos e ajudá-lo a obrigar a Ucrânia “a engolir” não sapatos, mas elefantes. A defesa dos ucranianos e dos seus interesses não estará representada na cimeira, porque o seu representante: Volodomyr Zelensky não só não foi convidado, como até voltou a ser insultado e humilhado pelo gabarola norte-americano. E caso não consiga os resultados desejados, ameaça abandonar o “processo de paz”.
Vladimir Pastukhov, conhecido analista político russo que reside no estrangeiro, afirma com toda a razão: ” Continuamos a estudar a “anomalia do Alasca”. É claro que se pode procurar longa e penosamente uma metáfora e construir ligações analíticas, ou pode-se ouvir uma breve entrevista e encontrar imediatamente uma única imagem precisa que reflicta toda a tragédia e, ao mesmo tempo, a comédia da situação. Isto aconteceu quando assisti a uma entrevista com o senador Lindsey Graham sobre o próximo encontro entre Putin e Trump no Alasca”.
“Uma piada – continua o analista – engraçada baseada num trocadilho com palavras em inglês veio-me à mente. Um monge de um dos mosteiros italianos foi encarregado de separar os manuscritos antigos dos livros religiosos e de identificar erros que surgiram como resultado de múltiplas reescritas. Depois de algumas semanas sentado numa cela a pão e água, correu para o pátio em terrível excitação, gritando: “Não ‘celibate’ (celibato), mas ‘celebrar’ (alegrar-se, festejar!)”.
“Algo semelhante aconteceu agora com a adivinhação no terreno Trump-Putin, quando milhares de artigos foram publicados simultaneamente sobre Putin e Trump a preparar-se para discutir uma “troca de territórios” no Alasca. Ouvindo Graham, levei a mão à cabeça, porque me apercebi: não se trata de uma “troca de territórios”, mas de uma “divisão de territórios”. Trump e Putin não se estão a reunir para discutir trocas, mas para concordar com a divisão das zonas de influência na Ucrânia”, frisou.
Seja quais forem as conclusões da cimeira, não esperemos o fim da guerra na Ucrânia, mas o início de um processo com resultados imprevisíveis. Até porque Trump parece não saber onde fica o Alasca.
José Milhazes, historiador e jornalista
