
Durante dois dias, a convite da Entidade Regional do Turismo do Alentejo e Ribatejo, partimos à descoberta de duas Estações Náuticas que estão a dar nova vida ao interior do país: Avis e Montargil. Mais do que meras infraestruturas ou locais de lazer, encontrámos uma rede viva de pessoas, paisagens e ideias, onde a água é o ponto de partida para um turismo sustentável, autêntico e com futuro.
As Estações Náuticas são projetos colaborativos que integram municípios, empresas, escolas, operadores turísticos e entidades públicas. Ligam-se a um plano de água, uma albufeira, um rio ou até ao mar, mas vão muito para além dele. Trabalham em rede, promovem o território de forma integrada e criam experiências que aliam natureza, bem-estar, mobilidade e identidade local.
Atualmente, o Alentejo conta com oito Estações Náuticas certificadas e a rede está em crescimento. Avis e Montargil são dois bons exemplos do caminho traçado.

Primeiro dia: Avis e a Albufeira do Maranhão
A viagem começou em Avis, onde a tranquilidade da Albufeira do Maranhão contrasta com a exigência dos atletas que ali treinam. Seleções internacionais de remo (como as do Reino Unido, da Dinamarca ou da Noruega) procuram este espelho de água pelo silêncio, pela ausência de motas de água e pela qualidade das infraestruturas. Treinam aqui ao longo de todo o ano, aproveitando as boas condições do clima, das infraestruturas de apoio e pelos meios técnicos disponíveis.
Susana Coelho, coordenadora da Estação Náutica de Avis, explicou-nos que “esta não é apenas uma zona balnear ou um centro de desportos. É um projeto de cooperação. Envolve parceiros locais da restauração, do alojamento, da produção alimentar, do turismo ativo e até da investigação. Desde 2018, esta Estação Náutica tem vindo a crescer de forma estruturada e a criar uma verdadeira rede de colaboração, que beneficia o território como um todo”.
Em Avis, encontrámos também uma zona de lazer com churrasqueiras, trilhos pedonais e cicláveis, piscinas e vários cais de embarque. Há ainda um espaço próprio para guardar embarcações e equipamentos, essencial para as equipas que ali estagiam. Tudo foi pensado com base no diálogo com as federações desportivas e com os utilizadores habituais do espaço.
O dia terminou da melhor forma com um passeio num barco movido a energia solar pela albufeira, promovido pela Alentejo EcoBoat Tours. Sem o ruído de motor, a natureza parece aproximar-se mais um pouco. O jantar decorreu na Herdade da Cortesia, com a empada de perdiz e os filetes de cação a darem o mote para uma refeição memorável onde o “dar ao dente” e “à língua” se uniram em plena harmonia.

Segundo dia: Montargil em evolução
O segundo dia começou com a receção junto ao Clube de Vela e Canoagem de Montargil, paredes meias com a barragem e com uma miríade de atividades aquáticas à disposição de visitantes e associados. Com preços quase simbólicos, graças ao apoio da Câmara, integra ainda a rede de desporto escolar e permite às crianças (e adultos) da região praticar remo ou vela, por exemplo, a custos controlados.
Depois das experiências dentro de água com o apoio da equipa do Clube de Vela de Montargil e de um fantástico almoço no restaurante Montes de Argila, rumámos à futura Estação Náutica e à praia fluvial, em Montargil, concelho de Ponte de Sor. A obra está em curso e integra um plano mais vasto de valorização da albufeira. Fomos recebidos pela equipa técnica do município, que nos apresentou o projeto: zona balnear com piscina flutuante, restaurante com esplanada, parque de merendas, cais móveis, trilhos pedonais, área para autocaravanas e novas instalações para o Clube de Vela.
Como explicou o presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor, Hugo Pereira Hilário, “este investimento responde a uma necessidade sentida há vários anos. Com o aumento da procura durante e após a pandemia, a albufeira de Montargil tornou-se um dos principais ex-libris turísticos do concelho. O número de camas passou de cerca de 200 para mais de 1500 em apenas uma década, e era tempo de estruturar a oferta com qualidade e visão de futuro”.
O jantar foi servido no restaurante panorâmico do Hotel Lago Montargil & Villas, uma unidade de cinco estrelas gerida pelo Grupo AP Hotels & Resorts. Situado mesmo junto à albufeira, este hotel combina conforto, elegância e uma vista deslumbrante. Foi uma excelente forma de terminar a visita, com uma refeição cuidada, num ambiente sereno e acolhedor.
Um projeto com rumo
No encerramento da visita, José Santos, Presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, destacou “o valor estratégico das Estações Náuticas. Mais do que locais de lazer, são plataformas de desenvolvimento, que ligam o turismo à sustentabilidade, à identidade dos lugares e à inovação”.
Referiu ainda que “o conceito está a ser promovido como uma resposta às alterações climáticas e às novas exigências dos viajantes. As Estações Náuticas do Alentejo são apresentadas como refúgios climáticos, espaços frescos, tranquilos, onde é possível praticar desporto, descansar e viver experiências autênticas, longe do ruído e da pressão dos grandes centros turísticos”.
Opções para todos os gostos
Além de Avis e Montargil, integram esta rede as Estações Náuticas de Odemira, com forte ligação ao Rio Mira e ao turismo ativo; Sines, voltada para os desportos marítimos e a tradição náutica atlântica; Amieira, Monsaraz e Moura, em plena envolvência do Alqueva, onde a paisagem e a água se fundem com o astroturismo e o enoturismo; e Mértola, ancorada nas margens do Guadiana e ligada à história e à cultura islâmica.
Cada uma com o seu perfil, mas todas com um objetivo comum: valorizar o território a partir da água, de forma sustentável e integrada.
A viagem por Avis e Montargil confirmou essa visão. Em ambos os casos, sentimos que o Alentejo está a investir com sentido, respeitando os ritmos da terra e envolvendo quem cá vive. A água, aqui, não é apenas um recurso. É um elo que une pessoas, ideias e territórios.
Quem vem ao Alentejo à procura de descanso, natureza, gastronomia de excelência e autenticidade, encontra nas Estações Náuticas um excelente ponto de partida. Quem fica, percebe que o verdadeiro luxo está no tempo, no espaço e na simplicidade com que tudo se liga.
Artigo por Rui Reis








