
A restauração dos ecossistemas de água doce foi o foco da recente reunião internacional da COP15 da Convenção de Ramsar, que terminou esta semana no Zimbabué. O encontro reforçou a necessidade de cooperação entre países para proteger rios, lagos e zonas húmidas transfronteiriços.
Mais do que paisagens serenas ou refúgios para aves migratórias, os ecossistemas de água doce – como rios, lagos, pântanos e zonas húmidas – são infraestruturas naturais vitais. Garantem o abastecimento de água potável, regulam o ciclo da água, previnem cheias, armazenam carbono, sustentam comunidades e ajudam a mitigar os efeitos das alterações climáticas. Mas estão em perigo.
Segundo a ONU, as zonas húmidas estão a desaparecer três vezes mais depressa do que as florestas. Poluição, sobre-exploração, construção de infraestruturas e, cada vez mais, os efeitos das alterações climáticas, estão a degradar ecossistemas inteiros. Quando estes territórios atravessam fronteiras nacionais, como tantos rios e lagos o fazem, o desafio torna-se ainda mais complexo – e a solução, necessariamente coletiva.
Uma agenda de cooperação para restaurar o que é partilhado
Foi este o ponto de partida para o Workshop Global sobre Conservação e Restauração de Ecossistemas em Bacias Transfronteiriças, promovido no final de julho pela UNECE (Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa), no âmbito da Convenção da Água.
O encontro reuniu representantes de países, organizações ambientais e agências da ONU, incluindo a União Europeia, a IUCN, a WWF e a Convenção de Ramsar, e concentrou-se em soluções práticas, modelos de financiamento e estratégias a longo prazo para restaurar ecossistemas de água doce partilhados por vários Estados.
Entre os casos discutidos estiveram as experiências positivas de cooperação entre Albânia, Grécia e Macedónia do Norte na gestão dos lagos Prespa, e entre Congo e República Democrática do Congo na proteção de zonas húmidas e turfeiras no complexo Lac Télé – Lac Tumba.
Estes exemplos mostram que, com gestão adaptativa, diálogo transfronteiriço e financiamento adequado, é possível restaurar a saúde ecológica destes sistemas, beneficiando milhões de pessoas e contribuindo para metas globais de biodiversidade, clima e água.
A COP15 de Ramsar reforça os compromissos
Poucos dias depois, a COP15 da Convenção de Ramsar sobre Zonas Húmidas, realizada em Victoria Falls, no Zimbabué, veio reforçar o apelo à ação. A conferência reuniu 172 países e terminou com a aprovação da Declaração de Victoria Falls, que defende o reforço da proteção, do financiamento e da integração das zonas húmidas nas políticas nacionais de clima e biodiversidade.
Entre as resoluções aprovadas destaca-se um apelo à aceleração das ações nacionais, ao envolvimento de comunidades locais, jovens e povos indígenas, e à mobilização de recursos financeiros para conservar e restaurar zonas húmidas. Foi também adotada, apesar de alguma polémica, uma resolução para continuar a monitorizar os impactos ambientais da guerra na Ucrânia nas zonas húmidas do país.
O que são afinal zonas húmidas — e por que são tão importantes?
Zonas húmidas são áreas onde a água é o principal fator de controlo ambiental. Podem ser permanentes ou sazonais, naturais ou artificiais. Exemplos incluem pântanos, charcos, estuários, deltas, turfeiras, arrozais, mangais e até certas áreas costeiras. Mais de 40% das espécies do planeta dependem diretamente destes habitats.
Mas há outro fator crucial: as zonas húmidas são sumidouros de carbono eficientes, sobretudo as turfeiras. Quando secam ou são drenadas, libertam quantidades significativas de gases com efeito de estufa, agravando o aquecimento global.
Por isso, restaurar zonas húmidas é também uma medida climática – tão importante como plantar árvores ou descarbonizar a energia.
Um futuro possível – mas que exige ação hoje
Durante o workshop da UNECE, foi anunciado que está em preparação uma resolução para fortalecer a restauração de ecossistemas de água doce, proposta pelo Gabão, no âmbito da Convenção de Ramsar. O texto será debatido nas instâncias internacionais e poderá servir de base para novas metas conjuntas.
Cabe agora aos países transformarem declarações em compromissos concretos.
A próxima COP da Convenção de Ramsar será no Panamá, em 2028. Até lá, o sucesso dependerá da capacidade coletiva de cooperar, investir e agir em defesa da água – o bem mais precioso e transversal do planeta.
