
Há carros que se apresentam como um produto. E há automóveis que se anunciam como um gesto, quase um juramento. O Alfa Romeo Giulia Quadrifoglio Luna Rossa pertence a esta segunda espécie: uma série limitada a dez unidades em todo o mundo, já todas elas vendidas, feita para existir pouco tempo no mercado… mas muito tempo na nossa memória.
A estreia, marcada para o Salão Automóvel de Bruxelas de 2026, não serviu apenas para mostrar um novo Quadrifoglio. Serviu para revelar um encontro de linguagens: a do automóvel de alta performance e a da competição náutica, onde se ganha, ou se perde, pela forma como se lê o invisível. Este Luna Rossa é o primeiro fruto da parceria entre a Alfa Romeo e a Luna Rossa, equipa que vive de transformar vento em velocidade e precisão em vantagem.
E é precisamente aí que este Giulia começa a ser diferente: não nasce de um capricho, nasce de uma ideia. A ideia de que a aerodinâmica não é “apoio”, é destino.
Um Quadrifoglio ainda mais radical
A Alfa Romeo diz-o com clareza: este é o Quadrifoglio mais eficiente de sempre em aerodinâmica. A frase não é marketing; é uma promessa medida. O novo kit de baixo atrito em fibra de carbono — apêndices no para-choques dianteiro, perfis na parte inferior da carroçaria, saias laterais específicas e a asa traseira, que permite gerar até cinco vezes mais força descendente do que a versão de produção.
O número que realmente importa surge quando o ar deixa de ser cenário e passa a ser carga: a 300 km/h, o Luna Rossa atinge um pico de cerca de 140 kg de força descendente. Não é um dado para a conversa de café; é um dado para a estabilidade, para a coragem, para aquele segundo em que o volante exige convicção e o carro responde com serenidade.
E há outro detalhe que diz muito sobre a maturidade do projecto: a Alfa Romeo trabalhou a distribuição dessa carga, mantendo um equilíbrio aerodinâmico ideal com 40% no eixo dianteiro. Ou seja: não se trata de “colar” o carro ao chão de qualquer maneira, trata-se de o fazer com a mesma disciplina com que um veleiro se equilibra no limite sem perder a linha.
Uma asa com ADN de regata
A peça que mais denuncia a influência da vela é a asa traseira. Duplo perfil, dois pilares centrais, e uma inspiração assumida nas quilhas do Luna Rossa AC75, apêndices hidrodinâmicos pensados para levantar o barco sobre a água. Aqui, a Alfa Romeo faz o que os bons engenheiros fazem: não copia; interpreta. Inverte a lógica para gerar o contrário da elevação: força descendente, eficiência e estabilidade, sem sacrificar a velocidade máxima, fixada nos 300 km/h.
O coração mantém-se: 520 cv e diferencial mecânico
Num tempo em que tudo se torna digital, há uma certa elegância em manter o essencial mecânico intacto. Sob o capô pulsa o V6 2.9 biturbo com 520 cv, acompanhado por um diferencial autoblocante mecânico. É a escolha que faz sentido num carro que quer ser radical sem ser histriónico: potência a sério, e uma solução de tracção que privilegia o que interessa quando a estrada fecha, binário bem colocado, estabilidade em apoio, saída de curva limpa.
A estética como assinatura
O Luna Rossa não precisa de gritar para ser visto. A carroçaria recebe uma pintura artesanal com efeito iridescente, evocando os tons do casco do veleiro; o contraste bicolor entre o preto “boat deck” e o cinza desenha volumes com uma precisão quase escultórica. E há um detalhe que muda tudo, porque mexe com o símbolo: pela primeira vez, os logótipos Alfa Romeo surgem em vermelho, como se a marca tivesse decidido assumir, sem rodeios, a palavra que sempre esteve por trás do Quadrifoglio.
As jantes de 19” recebem também uma tonalidade específica que conversa com o interior e reforça a identidade desta edição.
Dentro, um fragmento real de competição
É no habitáculo que este Giulia revela o seu lado mais íntimo e mais honesto. Os bancos Sparco trazem texturas e gráficos inspirados nos coletes salva-vidas (PFDs) da tripulação do Luna Rossa. Não é um padrão “bonito”; é um código de trabalho, um objecto de segurança transformado em linguagem estética.
E depois há o detalhe que distingue o colecionável do “especial”: o painel do tablier integra material original das velas do Luna Rossa, fornecido pela equipa e maquinado para viver ali, à frente do condutor. Um fragmento de regata, verdadeiro, transportado para um cockpit onde o vento já não empurra um casco, mas condiciona um carro.

Mais do que uma edição: um encontro de culturas
A parceria foi anunciada a 10 de junho de 2025, com um objetivo que vai além da visibilidade: enfrentar a 38.ª America’s Cup, que será realizada pela primeira vez em Itália, na Baía de Nápoles. O Luna Rossa, enquanto automóvel, nasce dessa ambição partilhada: não é um “modelo comemorativo”, é um sinal de que há colaboração técnica, troca de competências, pesquisa de materiais, e uma visão comum sobre como se supera o limite.
No fundo, este Giulia é isso: um Quadrifoglio que aprendeu com o mar. Um carro que entende que a velocidade não é só potência, é leitura do ar, é gestão do fluxo, é disciplina. E, quando tudo encaixa, é aquela sensação rara de que a engenharia também pode ser emoção.
Artigo por Rui Reis


