
Antes da curta visita de Steve Witkoff, alto representante do presidente Donald Trump para o Médio Oriente, parecia não ser possível complicar ainda mais a epopeia já confusa da pacificação de Trump. Mas, nas suas declarações após a visita, o presidente dos EUA conseguiu adicionar ainda mais confusão a todo o processo de paz na Ucrânia.
As expectativas quanto aos resultados do encontro no Kremlin de Vladimir Putin e Witkoff eram muito poucas ou nenhumas, mas Trump, no seu habitual estilo fanfarrão, fez declarações bastante ambíguas, que vão desde a imposição de novas sanções não só à Rússia, mas também à Índia, um dos principais consumidores do petróleo russo, até a encontros de Putin e Trump e desses dois líderes com Volodomyr Zelenskyna próxima semana.
( A propósito, é verdade que a Índia importa quantidades significativas de crude russo obtendo com isso preços muito especiais, que lhe permite obter lucros significativos ao exportar gasolina refinada no seu território para vários países, incluindo membros da União Europeia. Ou seja, há muito que este negócio floresce “com a benção” da burocracia de Bruxelas. Aliás, as sanções ocidentais têm muito que se lhe diga.)
No entanto, é possível, na próxima semana, que se realize uma cimeira Trump-Putin num país do Médio Oriente, pois Moscovo e Washington já a confirmaram, mas o mesmo não se pode dizer do encontro a três. Steve Witkoff , realmente levantou a ideia de uma reunião trilateral entre Putin, Trump e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, mas Moscovo deixou o assunto sem comentários.
Hoje mesmo, Zelensky disse que convocaria os líderes europeus para continuarem a discutir os resultados dos contactos de ontem entre os EUA e a Rússia para pôr fim à guerra. Em particular, estão planeadas conversações com o Chanceler alemão Merz, representantes de França e Itália, e uma chamada telefónica com conselheiros de segurança nacional.
“É importante discutir detalhes importantes”, escreve o presidente ucraniano, expressando a sua visão de um possível fim para a guerra.
“Em primeiro lugar, os assassinatos devem cessar, e é a Rússia que deve concordar com um cessar-fogo. Em segundo lugar, este é um formato para os líderes, para que a reunião possa contribuir para uma paz verdadeiramente duradoura. Nós, na Ucrânia, temos afirmado repetidamente que a procura de soluções reais pode ser verdadeiramente eficaz ao nível da liderança. Precisamos de decidir o momento para tal formato, considerando o leque de questões. Em terceiro lugar, a segurança a longo prazo. Isto é possível em conjunto com os Estados Unidos e a Europa”, escreve Zelensky.
Esta ideia de Zelensky é muito vaga e os Estados Unidos querem avançar mais rápido, ideia que não foi rejeitada pelo Kremlin. Iúri Uchakov, assessor de Putin para assuntos internacionais, reconheceu que “Os EUA fizeram uma oferta que a Rússia considera aceitável”.
Segundo várias fontes, essa proposta norte-americana prevê: a Ucrânia e a Rússia não concluirão a paz, mas sim uma trégua; o reconhecimento de facto das conquistas territoriais russos (adiando esta questão por 49 ou 99 anos); a suspensão da maioria das sanções impostas à Rússia; a longo prazo, o regresso à importação de gás e petróleo russos; não há garantias de não expansão da NATO; está ausente a promessa de suspender o apoio militar à Ucrânia.
Marc Rubio, chefe do Departamento de Estado norte-americano, considerou que o problema mais importante é o dos territórios, mas para o Kremlin, ainda mais importante é neutralidade e a desmilitarização da Ucrânia.
Porém, se qualquer proposta acima citada for avante, Zelensky terá muita dificuldade em convencer os ucranianos a aceitá-la. Segundo sondagem hoje publicada, a maioria dos ucranianos rejeita categoricamente o plano de “paz” da Rússia, com 17% dispostos a apoiá-lo . 76% dos ucranianos rejeitam liminarmente “o plano russo, que passa pela retirada das Forças Armadas Ucranianas do território de quatro regiões ucranianas, pela recusa da Ucrânia em aderir à NATO e pelo levantamento das sanções contra a Federação da Rússia.
Em qualquer um dos cenários, não se pode admitir uma rápida solução para este problema complicado. Estamos perante graves ameaças à segurança europeia e mundial, provocadas pela política expansionista de Vladimir Putin, que, se vencer o confronto na Ucrânia, poderá continuar essa política.
José Milhazes, jornalista e comentador
