Se analisar-nos os resultados da reunião dos presidentes Zelensky e Trump friamente, sem as cores narcisistas do líder norte-americano e os elogios forçados do presidente ucraniano e dos líderes europeus, teremos de admitir que o ditador russo Putin soube, uma vez mais, “dar a volta” a Trump sem que este oferecesse resistência.
Uma mão cheia de nada ou quase nada
“Espremendo” tudo o que foi dito antes e depois do encontro no piroso palácio de Trump, na Flórida, conseguimos descobrir um pequeno ponto positivo: desta vez, não houve declarações claramente insultuosas, condescendentes e agressivas por parte do presidente norte-americano.
No entanto, não se pode deixar de ressaltar que Donald Trump não conseguiu evitar a desagradável tirada sobre as “boas intenções” do seu homólogo russo:
“A Rússia vai ajudar [a reconstruir a Ucrânia]. A Rússia quer que a Ucrânia seja bem-sucedida”, disse Trump, reconhecendo, em seguida, que a afirmação poderia soar “um pouco estranha”. Em resposta, o presidente ucraniano, Volodomyr Zelensky, reagiu com uma risada azeda.
Trump foi igual a si mesmo também quando justificou os bombardeamentos russos com o facto de a Ucrânia fazer o mesmo. Logo a seguir, tentou atenuar o impacto desta declaração, mas de forma pouco convincente. Ele continua a defender a tese da culpa igual do violado e do violador.
No que diz respeito à consecução de um plano de paz aceitável, continua a faltar superar os dois mais importantes obstáculos: o estatuto do Donbass e as garantias de segurança para a Ucrânia.
Segundo Zelensky, a questão dos territórios deve ser respondida pelo povo ucraniano e um possível referendo pode abordar cada um dos pontos do plano de paz. “Claro, a nossa sociedade deve fazer uma escolha. <…> Porque esta é a sua terra, a terra do nosso povo por muitas gerações”, afirmou.
Niet, Niet, Niet!
Ainda o encontro entre Zelensky e Trump não tinha terminado e já Iúri Ushakov, assessor do ditador Putin para assuntos internacionais, declarava que o fim da guerra na Ucrânia só poderia ser alcançado se o lado ucraniano “adotasse uma decisão política em relação a Donbass que fosse consistente com os acordos alcançados entre Moscovo e Washington”. Ou seja, o Kremlin volta a frisar que não tenciona renunciar às suas exigências que alegadamente Trump aceitou na Cimeira do Alasca.
Além disso, poucas horas depois de uma nova conversa telefónica entre Trump e Putin realizada após o encontro na Flórida, que a Casa Branca avaliou de forma positiva, Putin reuniu-se com as suas chefias militares e ordenou-lhes continuar o avanço rumo a Zaporizhia, Sumy e Kharkiv.
Logo a seguir, coincidência ou não, O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmou que as Forças Armadas da Ucrânia tentaram, na noite de 29 de dezembro, realizar um ataque maciço à residência de Vladimir Putin na região de Novgorod, com drones. Segundo ele, foram utilizados 91 drones no ataque.
“Todos os drones [ucranianos] foram destruídos pelos meios de defesa aérea das Forças Armadas da Federação Russa. Não houve relatos de vítimas ou danos causados pelos destroços dos drones”, disse Lavrov.
Dados oficiais do Ministério da Defesa russa, porém, dizem que, na noite desse dia, as tropas russas abateram 89 drones. Ou seja, Lavrov mostrou mais uma vez “falta de pontaria”.
O chefe da diplomacia russa acrescentou que a posição negocial da Rússia seria revista após este incidente, mas que Moscovo não tenciona abandonar as negociações com os EUA para uma resolução pacífica na Ucrânia. O ministro também ameaçou Kiev de que tais ações não ficariam impunes: segundo ele, os alvos e o momento dos ataques de retaliação já estão definidos.
Yuri Ushakov veio precisar que o ataque ocorreu “praticamente logo após as conversações entre a Ucrânia e os Estados Unidos e que provocaram indignação em Donald Trump e que este, na conversa telefónica com Putin, lhe teria dito que “Graças a Deus, não demos mísseis Tomahavk a Zelensky.
O Presidente Zelensky reagiu rapidamente à acusação russa, desmentindo-a e considerando-a um falso pretexto para Moscovo atacar o centro de Kiev, mas Trump já tomou a decisão de estar ao lado do seu amigo Putin. Este já recebeu “luz verde” para esmagar a Ucrânia.
Controlo global
Deste modo, Putin tenta fazer com que a Ucrânia e a Europa sejam afastadas do “processo de paz” e este passe a ser da competência exclusiva do Kremlin e da Casa Branca. A troco de promessas económicas e outras, Trump está disposto a sacrificar ucranianos e europeus, optando mesmo por apoiar outro dos grandes objectivos da política externa russa: a desintegração europeia.
Claro que entre os “senhores do mundo” está também a China, que poderá participar na “reconstrução” de uma Ucrânia reduzida a uma soberania limitada. Afinal Putin mais não faz do que continuar a política externa dos czares e secretários-gerais comunista, mas, desta vez, com o apoio dos Estados Unidos.
