Embora esteja muito confuso o ambiente em termos de processo de paz, já podemos tirar algumas conclusões. A primeira é que a Europa foi afastada desse processo e mais uma vez humilhada pelo seu aliado, os Estados Unidos.
Isso ficou bem patente quando, no domingo, 23 de Novembro, Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, declarou que nada sabia sobre a proposta de paz europeia. Isto poucas horas depois dela ser publicada.
Esta atitude é claramente um sinal dado pela Casa Branca de que os esforços e as propostas europeias apenas contribuem para criar dificuldades à proposta russo-norte-americana. Os europeus só serão necessários para carregar o fardo das despesas com a reconstrução da Ucrânia e dos lucros que Donald Trump quer obter com isso.
Temos de reconhecer que a contra-proposta de paz da Europa irá simplesmente ignorada pelo Kremlin, pois contém pontos inaceitáveis para Vladimir Putin, como a integridade territorial da Ucrânia, a possibilidade desta aderir à NATO ou o número de soldados das Forças Armadas ucraniana. O ditador russo prefere o diálogo com os dirigentes norte-americanos pois, tal como ele, não têm qualquer tipo de escrúpulos.
Aliás, como se vem agora a saber, a criação do tão falado plano de paz de 28 pontos não nasceu no Kremlin, mas nos Estados Unidos. A iniciativa da sua elaboração partiu de Steve Whitkoff, enviado especial de Trump para o Médio Oriente, e de Jared Kushner, genro do presidente.
A seguir, ocorreram os encontros desses dois “diplomatas” norte-americanos com Kirill Dmitriev, representante de Putin, e, depois, com Rustem Umerov, chefe do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia, que, segundo os norte-americanos, teria apoiado o plano apresentado com algumas alterações.
Esperando que os dirigentes ucranianos concordassem, Witkoff planeava ir à Turquia na passada quarta-feira para discutir o assunto directamente com Zelensky, mas essa reunião não aconteceu, pois a Casa Branca considerou que os ucranianos não estavam interessados numa proposta que, no fundo, seria um acto de “capitulação”.
Não obstante, o ministro do Exército norte-americano, Dan Driscoll foi encarregado de apresentar oficialmente o plano a Zelensky em Kiev na quinta-feira e convencê-lo a concordar.
Após o encontro de Zelensky com Driscoll na quinta-feira, um funcionário americano afirmou que foram acordados “prazos agressivos para a assinatura”.
Um alto representante da administração disse que Driscoll “antecipou os acontecimentos”, conduzindo “negociações de paz em grande escala” com altos funcionários ucranianos, e Trump apressou-se a anunciar um prazo para o acordo: o Dia de Ação de Graças, 27 de Novembro.
Porém, irritado e vendo a situação confusa, ele enviou negociadores a Genebra. Após as conversações entre norte-americanos e ucranianos, que ambas as partes disseram que tinham corrido bem, começou-se a falar da possibilidade da realização de um encontro de Trump com Zelensky esta semana ou no início da próxima, mas só se realizará se os ucranianos cederem às exigências da Casa Branca.
Isto coloca Zelensky não entre a espada e a parede, mas entre duas espadas, com um campo muito reduzido de manobra. A fragilidade política e negocial do Presidente ucraniano aumenta devido aos revezes das tropas ucranianas nas frentes de combate, aos casos de corrupção a alto nível e às lutas internas no seu país se ele assinar um acordo de paz desfavorável à Ucrânia.
Enquanto isso, o porta-voz do Kremlin, na segunda-feira de manhã, veio afirmar que a Rússia de nada sabia, de não ter recebido qualquer tipo de proposta. Porém, algumas horas depois, Putin veio dizer que o plano de paz proposto por Trump “pode servir de base para um acordo final de paz.e regozija-se com o ambiente criado em torno da Ucrânia. Situações como estas apenas contribuem para aumentar os apetites imperialistas de Putin. Este ditador sanguinário, à custa de milhões de mortos e feridos nos combates na Ucrânia, parece estar muito próximo de conseguir dois dos seus grandes sonhos: rebentar com a aliança transatlântica e com a União Europeia tal como a conhecemos.
“Putin observou que essas propostas, na forma em que as conhecemos, estão alinhadas com as discussões na reunião de alto nível entre Rússia e Estados Unidos no Alasca e, em princípio, podem servir de base para um acordo final de paz”, diz um comunicado do Kremlin, após uma conversa telefónica entre Putin e Erdogan, presidente da Turquia. Deste modo, o ditador russo põe de lado as alterações ao plano de Trump exigidas pela Ucrânia e a União Europeia.
Quanto à Europa, está com um aspecto completamente lamentável. A maioria dos dirigentes europeus revela diariamente a sua incompetência, nomeadamente no que diz respeito ao apoio à Ucrânia. Perdem tempo em conversas vazias sobre que armas fornecer e, quando decidem fazê-lo, já é tarde. As tropas ucranianas não precisam de cem aviões de combate para depois de 2030, precisam sim de apoio agora. Eles parecem não terem consciência de que em perigo está não só o destino da Ucrânia, mas também da Europa e até do mundo.
Acredito que Donald Trump não tire lições da História, pois parece desconhecê-la. Mas os dirigentes europeus?.. Acordem de vez!
José Milhazes
Historiador e jornalista
