
Se alguém estiver à espera de ver a tão falada Cimeira Putin-Zelensky, proponho que se sente, pois a espera será muito longa. E quando acontecer, o Kremlin apresentará mais uma operação para dificultar esse processo de paz.
Em declarações feitas por Serguei Lavrov, uma das “vozes do dono” da ditadura putinista, ele voltou a declarar que Putin e Trump estão determinados a pôr fim ao conflito na Ucrânia: “Após as conversações [no Alasca], eles constataram a determinação dos dois países em alcançar resultados num grande número de áreas de trabalho conjunto. Os presidentes manifestaram também a sua disponibilidade para trabalhar com vista a pôr fim ao conflito na Ucrânia”.
Porém, este “diplomata” quer fazer do dono do Kremlin um exemplo de pureza e santidade, por isso acusa a Ucrânia e os países europeus de todas as culpas no processo de negociações: “ O regime ucraniano e os seus representantes estão a comentar a situação atual de forma muito específica, demonstrando diretamente que não estão interessados numa solução sustentável, justa e a longo prazo”.
Claro que a Ucrânia não está sozinha nas tentativas de “minar” os esforços da Rússia e dos Estados Unidos: “Após a cimeira Rússia-EUA no Alasca, onde foram alcançados progressos significativos, <…> os países europeus seguiram Zelensky até Washington e tentaram aí fazer avançar a sua agenda. <…> Todos estes planos estão relacionados com o fornecimento de garantias (de segurança) através de uma intervenção militar estrangeira em alguma parte do território ucraniano”, repete Lavrov, e remata: <…> Isto será absolutamente inaceitável para a Rússia e para todas as forças políticas sensatas na Europa.”
Serguei Lavrov continua a impressionar com as “cedências” e a bondade de Putin: “Moscovo apoia as garantias de segurança acordadas por iniciativa da delegação ucraniana em Istambul em Abril de 2022. Qualquer outra medida, unilateral, é uma tarefa absolutamente inútil”, avisou Lavrov. Segundo este, as garantias serão dadas por todos os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, incluindo a Rússia. Ou seja, Moscovo, o invasor, mais a China, Grã-Bretanha, França e Estados Unidos – os mesmos que permitiram a violação grosseira do Protocolo de Budapeste de 1994, que previa a entrega das armas nucleares pela Ucrânia à Rússia em troca da sua segurança e integridade territorial – são agora mais responsáveis e operativos?
Mas as exigências de Lavrov vão mais longe: “Quando chegar a altura de assinar futuros acordos, a questão da legitimidade da pessoa que assinará esses acordos pelo lado ucraniano será resolvida”.
Aqui coloca-se uma importante questão: como é que uma ditadura de 25 anos pode ditar as regras da democracia e da lei a um país que só não realiza eleições, porque foi invadido e está em guerra pela libertação do seu território? Ou será que Moscovo permitirá a Kiev realizar plebiscitos “realizados à pressão” e como resultados já pré-definidos, como na Crimeia ou no Donbass?
Porque será Trump tão elogiado na Rússia?
Que nos recordemos, nunca algum presidente dos Estados Unidos foi tão elogiado na Rússia como está a ser Trump. Ao mesmo tempo que Moscovo acusa os países ocidentais e a Ucrânia de se desfazerem em loas em relação ao líder americano, o que é verdade, a imprensa russa amordaçada não se cansa de, diariamente, louvar a política de Trump no que diz respeito ao problema ucraniano.
A agência de notícias oficiosa Ria-Novosti vai na vanguarda desta campanha, apresentado o dirigente dos EUA como o político que, com Putin, faz “enormes esforços” para pôr fim à guerra na Ucrânia, que enfrenta tentativas de golpes de estado lançados pelos democratas americanos ou pelo “governo mundial profundo”. A julgar pela bajulação, o aparelho de propaganda do Kremlin vai batendo os líderes europeus e ucraniano. Por aqui também podemos imaginar o conteúdo das conversas telefónicas entre Trump.
Estamos perante uma nulidade política à frente de uma superpotência, um ignorante em numerosas matérias, principalmente no campo da geografia, e Putin aproveita-se disso. Logo após o fim da Cimeira do Alasca, Trump declarou que, dentro de uma ou duas semanas, nos diria se a paz na Ucrânia é possível. Quase passaram duas semanas e o disco toca o mesmo. Na quinta-feira, 21 de Agosto, ele afirmou que, dentro de duas semanas, revelará se haverá paz na Ucrânia e admite mudar de tática se a resposta for não.
Por acaso Trump não estará com problemas de saúde mental tão ou mais graves do que os do seu antecessor na Casa Branca: Joe Biden?
José Milhazes, historiador e jornalista
