
O GR Yaris Morizo RR não é uma edição especial feita para fotografia: é um exercício de engenharia com origem num dos lugares mais implacáveis para validar um automóvel, o icónico circuito de Nürburgring.
A Toyota pegou na experiência de resistência, tratou-a como dados e transformou-a numa configuração onde tudo trabalha em cadeia, transmissão, tração integral, aerodinâmica, amortecimento e direção, para entregar aquilo que interessa num desportivo compacto moderno: consistência, leitura mecânica e confiança quando a estrada deixa de ser perfeita.
No centro do conceito está a Gazoo Racing Direct Automatic Transmission (GR-DAT) de 8 velocidades, aqui assumida como componente de performance e não como conveniência. A lógica é simples: num contexto exigente, a vantagem não está apenas em mudar depressa, mas em mudar sempre da mesma forma, com repetibilidade, com controlo do binário nas fases críticas e com menor carga de trabalho para o condutor quando o ritmo é alto e o desgaste físico começa a pesar.
Num carro curto, reativo e com muita capacidade de tração, a qualidade da gestão de binário em transientes é tão determinante como o valor máximo de potência, porque é aí que se decide se o carro é eficaz ou apenas excitante.

Afinação específica
A afinação de chassis segue a mesma filosofia: a suspensão foi desenvolvida para manter o pneu a trabalhar onde muitos “hot hatch” falham, em piso irregular, ondulado, com compressões e ressaltos que desorganizam o contacto e degradam a tração.
Aqui não se trata de endurecer por endurecer; trata-se de controlar. Controlar o assentamento sob carga, controlar o retorno, controlar a forma como a roda copia o piso e como o corpo do carro se estabiliza sem perder fluidez. O detalhe que denuncia método é a ligação direta à aerodinâmica: a asa traseira específica gera força descendente e isso altera cargas a alta velocidade; logo, o amortecimento tem de estar calibrado para “segurar” o carro sob downforce sem o tornar nervoso ou saltitante quando o asfalto é mau. É um equilíbrio difícil e é precisamente aí que se separa um kit visual de um pacote técnico.
Quando o chassis muda, a direção tem de falar a mesma língua. Por isso, a calibração do EPS foi revista para preservar o que realmente interessa ao condutor: progressividade, retorno, leitura de aderência e confiança na fase de travagem e na entrada de curva. Num carro com esta rapidez de reações, uma direção “bem afinada” não é conforto, é precisão, é previsibilidade, é a diferença entre apontar o carro com naturalidade ou conduzi-lo sempre em correção.
A tração integral também recebe um ajuste com assinatura própria: surge o modo “MORIZO”, que substitui o anterior modo de baixa aderência e define uma distribuição inicial 50:50. Tecnicamente, isto é uma declaração de intenções: base neutra, comportamento mais previsível no apoio e uma plataforma estável para acelerar cedo à saída sem depender de correções tardias. É o tipo de parametrização que privilegia velocidade média e consistência, sobretudo quando o piso não oferece a mesma aderência em cada metro.
Muita fibra de carbono
O pacote aerodinâmico e de materiais completa o raciocínio com coerência: asa traseira em fibra de carbono, spoiler dianteiro, saias laterais e capô em carbono não estão ali para “parecerem” competição, estão ali para alterarem o comportamento do carro em carga, estabilizarem o eixo traseiro e, quando aplicável, ajudarem a baixar massa onde interessa. A estética existe, claro, e a identidade está bem marcada, a cor exclusiva Gravel Khaki, as jantes em bronze mate, os apontamentos em amarelo, mas o Morizo RR não pede atenção; pede estrada. Pede ritmo. Pede que se perceba o que está por trás das escolhas.
Com uma produção limitada a 100 unidades para a Europa e 100 para o Japão, o Morizo RR é uma mensagem técnica em forma de automóvel: mais do que procurar números de impacto, procura aquela qualidade rara que só aparece quando o desenvolvimento é feito com método e em condições severas, a capacidade de fazer o condutor confiar, volta após volta, curva após curva, num carro que não é apenas rápido, mas afinando. E num mundo de edições especiais “de catálogo”, isso é, por si só, o verdadeiro luxo.

Artigo por Rui Reis


