Quando o presidente norte-americano, Donald Trump, precisar de “bodes expiatórios” para justificar o falhanço das suas acções contra o Irão, irá certamente apresentar, pelo menos, dois: a “traição” dos parceiros da NATO” e a “glutona Ucrânia”.
Não obstante todas as declarações vitoriosas de Trump, o grande poderio militar dos Estados Unidos e de Israel em comparação com o Irão, as coisas não estão a correr da forma esperada em Washington e Telavive. Torna-se cada vez mais evidente que, sem botas no terreno norte-americanos e israelitas, não conseguirão atingir os objectivos apontados.
Mas vamos aos “bodes expiatórios”. No que respeita à “traição” dos parceiros da NATO, Trump não se vai esquecer do “abandono” a que foi lançado pelos Estados europeus e não esconde que se irá vingar. Esta vingança poderá ir até à anexação da Gronelândia ou até mesmo ao fim da Aliança Atlântica. Tudo vai depender do tempo que Trump permanecer na Casa Branca.
O segundo “bode expiatório” será certamente a Ucrânia que tanto para Trump como para o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, é responsável pelo esgotamento das reservas militares dos Estados Unidos.
Hegseth afirmou que as reservas americanas de munições estão esgotadas, em parte devido aos fornecimentos à Ucrânia. Segundo ele, muitos dos problemas atuais estão relacionados com o facto de o armamento “ter sido enviado não para os seus militares, mas para Kiev”.
Ele acrescentou que agora estes recursos devem ser utilizados “no interesse dos EUA”.
A propósito, os meios de comunicação social informaram anteriormente que, apenas nos primeiros seis dias da guerra com o Irão, os EUA gastaram mais de 11 mil milhões de dólares, grande parte dos quais em munições, incluindo mísseis para os sistemas Patriot, THAAD e Tomahawk.
Quase ao mesmo tempo destas declarações, também repetidas pelo presidente dos EUA, o dirigente ucraniano Volodymyr Zelensky, durante um discurso no Conselho Europeu, coloca esse raciocínio como uma das cinco ameaças recentes e graves que poderão fortalecer a posição da Rússia nas negociações de paz.
“Nos últimos dias, temos recebido sinais do lado americano de que as negociações podem ser retomadas em breve. Mas qual é o clima do lado russo para as negociações desta vez?”, pergunta Zelensky, e acrescenta: “Cabe a todos nós garantir que os russos não cheguem a essas negociações com a sensação de que a sua posição foi significativamente fortalecida. E não apenas por causa da situação em torno do Irão, que está a aumentar os preços globais do petróleo”.
Além da Rússia estar a encher os seus cofres com dólares e yuans, o Kremlin acredita que a redução do abastecimento de armas norte-americanas, principalmente mísseis, à Ucrânia, irá enfraquecer as posições de Zelensky nas conversações com a Rússia. Mais, a ajuda financeira da União Europeia, no valor de 90 mil milhões de euros, tarda a chegar à Ucrânia devido ao veto de Orban e a aprovação do 20º pacote de sanções da UE contra a Rússia está paralisado.
Estas apreensões aumentam com as sucessivas declarações anti-ucranianas de Trump. Este dirigente norte-americano pressiona fortemente Zelensky para aceitar a retiradas das tropas ucranianas de toda a região de Donbass.
Cansados da guerra e atentos à política internacional, mais de 60% dos ucranianos apoiam a realização de um referendo sobre um acordo com a Rússia que incluiria “concessões territoriais não especificadas”, de acordo com o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS).
A pesquisa revelou que, se os benefícios de um acordo de paz para a Ucrânia trouxessem, além dos “compromissos territoriais vagos”, a adesão à União Europeia em 2027, garantias de segurança e recuperação económica, 61% dos entrevistados votariam “a favor” da participação em tal referendo, enquanto 10% votariam “contra” (os restantes estão indecisos). Dos que votariam, 85% apoiariam o acordo de paz, enquanto 14% não o apoiariam.
Sem os citados benefícios, apenas 50% dos entrevistados apoiam a ideia de um referendo sobre um acordo de paz, uma queda de 5% em comparação com janeiro de 2026. O número de pessoas que se opõem também aumentou de 32% para 40%.
A chegada da Primavera à Ucrânia poderá esclarecer a situação no terreno. Não se pode excluir a possibilidade de um grande ataque russo em várias frentes, com vista a pôr fim à resistência ucraniana. Se Putin tiver êxito, pode aumentar as suas exigências nas conversações de paz. Mas pode acontecer que os ucranianos consigam travar a ofensiva russa e obriguem os russos a avançar a “passo de caracol”.
P.S. Na Rússia assiste-se ao aparecimento de movimentações anti-Putin, principalmente devido às limitações do acesso à Internet e ao canal “Telegram”. Os insatisfeitos convocaram uma marcha de protesto contra essas medidas em várias cidades russas, mas o regime policial e repressivo já começou a deter os autores dessa . Porém, estas motivações não serão suficientes para poder pôr em cheque o putinismo.
