
Entraves administrativos, limitações da rede elétrica e dificuldades económicas estão a travar o ritmo de crescimento da energia solar em Portugal, numa altura em que o consumo de eletricidade continua a aumentar e o sistema volta a recorrer mais ao gás natural, segundo a associação Zero.
O ano de 2025 trouxe um paradoxo ao sistema energético português. Nunca se consumiu tanta eletricidade, mas esse aumento não foi acompanhado por uma expansão equivalente da produção renovável. Para a associação ambiental Zero, este desfasamento ajuda a explicar porque é que o solar fotovoltaico, apesar do seu potencial, está a crescer a um ritmo muito mais lento do que seria necessário.
De acordo com os dados analisados pela associação, o consumo de eletricidade em Portugal atingiu 53,1 TWh em 2025, mais 3,2% do que no ano anterior. Já a produção renovável, embora tenha alcançado um valor absoluto recorde, praticamente não cresceu em termos homólogos. O resultado foi uma menor presença das renováveis no consumo total e um regresso mais intenso à produção a partir de gás natural.
A Zero estima que este desequilíbrio tenha levado a um aumento de cerca de um milhão de toneladas de CO2 associadas à produção de eletricidade em 2025. Um dado que ganha particular relevância porque, nos últimos anos, a descida das emissões do setor elétrico tinha sido um dos principais contributos para a redução global das emissões em Portugal.
No caso específico do solar, a associação identifica vários bloqueios. Por um lado, houve uma diminuição no progresso da instalação de nova potência fotovoltaica, tanto em grandes centrais como em projetos descentralizados. Por outro, muitos projetos já licenciados não avançam por falta de viabilidade económica. A remuneração da eletricidade solar é demasiado baixa em períodos do dia em que a produção excede o consumo, sobretudo quando não existem soluções de armazenamento ou quando a rede ibérica não permite exportar essa energia.
Este problema estrutural revela uma limitação mais profunda do sistema elétrico, denunciam os ambientalistas. Produzir mais energia renovável não é suficiente se não existirem redes capazes de a transportar, mecanismos de flexibilidade para gerir picos de produção e soluções de armazenamento que permitam guardar eletricidade para quando ela faz falta. A Zero defende, por isso, uma estratégia nacional clara para o armazenamento de energia elétrica, alinhada com o objetivo de instalar 2 GW de baterias até ao final da década, conforme previsto no PNEC.
O contexto é ainda mais exigente porque a eletrificação da economia está a avançar. Portugal ultrapassou os 200 mil veículos elétricos em circulação e o consumo de gás natural fóssil, butano e propano tem vindo a descer nos setores industrial, residencial e de serviços, sinais de uma transição energética em curso. No entanto, a associação alerta que eletrificar consumos só contribui para a descarbonização se a eletricidade utilizada for, maioritariamente, de origem renovável.
Para a Zero, sem um reforço acelerado da produção renovável, das redes elétricas, das interligações com Espanha e dos sistemas de armazenamento, o aumento da procura continuará a ser parcialmente satisfeito por centrais a gás natural. Um cenário que ameaça atrasar o caminho de Portugal para a neutralidade climática e expõe os limites de uma transição energética que não acompanha, ao mesmo ritmo, o crescimento do consumo.
