
Há coisas que não deviam acontecer. Muito menos em 2025. Muito menos diante dos nossos olhos. Há imagens que deviam ser impossíveis de existir na era da inteligência artificial, do streaming instantâneo, dos carros elétricos e dos telemóveis dobráveis. Uma criança com a barriga vazia, os olhos fundos e sem lágrimas. Um pai a chorar, de mãos vazias, porque não conseguiu trazer um pacote de arroz. Uma fila de pessoas a correr sob tiros enquanto esperavam por ajuda. Tudo isto parece ficção de mau gosto, mas está a acontecer agora em Gaza, no Sudão, no Iémen, na Etiópia, no Haiti. Em vários cantos do mundo onde a fome e a violência deixaram de ser uma consequência e passaram a ser uma arma.
Uma fome “imposta”?
Em Gaza, os números são tão assustadores quanto reais. Desde outubro de 2023, o território transformou-se num campo de ruínas humanas. Mais de 470 mil pessoas vivem em fome catastrófica. Sim, não é “apenas” escassez. É fome catastrófica: o pior grau reconhecido internacionalmente. Inclui milhares de crianças com desnutrição severa e mães que amamentam sem leite no corpo. A Organização Mundial de Saúde fala numa “fome fabricada”. Não por seca. Não por catástrofe natural. Mas por bloqueios, bombardeamentos, destruição de hospitais, e pela recusa deliberada em deixar entrar ajuda suficiente. Só nos últimos dias, mais de 110 pessoas morreram oficialmente de fome, e antevemos que esse número esteja subestimado. Mais de mil foram mortas a tiro quando tentavam aceder a alimentos.
A imagem de uma criança que morre à fome devia ser inaceitável. Mas o que está a tornar-se inaceitável é a normalização desse horror. Já não há palavras que cheguem para descrever a brutalidade. Mas isso não nos impede de continuar a falar. De continuar a alertar. Porque o que se passa em Gaza é apenas uma das faces de uma tragédia maior, global, silenciosa e, em muitos casos, ignorada.
25 milhões à espera de ajuda
No Sudão, mais de 25 milhões de pessoas precisam de ajuda urgente. Desde que rebentou a guerra civil em 2023, calcula-se que mais de meio milhão de crianças tenham morrido por fome. Os hospitais foram bombardeados. As cidades cercadas. E em El Fasher, um ataque aéreo destruiu uma maternidade, matando recém-nascidos e mulheres em trabalho de parto. A comunidade internacional assistiu. E, mais uma vez, pouco ou nada fez.
No Iémen, a guerra arrasta-se há quase uma década. Já matou milhares pela violência direta, mas matou ainda mais pelo que deixou de pé: nada. Há crianças que nunca viram uma escola, mães que enterraram dois filhos e continuam a alimentar os outros com folhas fervidas. Em 2025, 17 milhões de iemenitas enfrentam fome grave e um milhão de crianças sofre de desnutrição severa. E o mais irónico? A ajuda humanitária necessária já está contabilizada, mas falta dinheiro ou falta vontade política ou, pior ainda, falta empatia…
E há mais. Etiópia, onde o conflito em Tigray fez desaparecer cidades inteiras e dizimou centenas de milhares, com estimativas de 378 mil mortos. Haiti, onde o colapso político, os gangues armados e a indiferença internacional levaram a uma crise alimentar em que já morreram mais de 5 mil pessoas à fome. República Democrática do Congo, onde o conflito e a deslocação forçada atingem quase oito milhões de pessoas, muitas das quais vivem escondidas nas florestas sem acesso a comida ou água potável. A lista não para de crescer.
Quem paga são sempre os mesmos
Os números impressionam, mas o mais devastador é isto: as vítimas são sempre as mesmas. Civis. Crianças. Mulheres. Idosos. Pessoas com deficiência. Os que não lutam, não decidem, não disparam, mas que pagam com a vida. Pagam com o corpo, com a fome, com a sede. Pagam por guerras que não pediram e por decisões que nunca tomaram.
Vivemos num mundo que se diz civilizado. Que produz em excesso. Que gasta milhões em missões espaciais, em shows de drones, em festas sumptuosas e em inteligência artificial. Mas onde uma criança morre a cada dois minutos por desnutrição. Onde há mais telemóveis do que camas de hospital. Onde há mais alertas de notícias do que respostas. Onde vemos, mas não reagimos.
Não se trata de ideologia. Não se trata de escolher um dos lados. Trata-se de humanidade. De reconhecer que o sofrimento de uma criança não pode depender da geografia, das politiquices, dos interesses instalados, das indústrias de armamento e afins. Que todos os civis, em todos os lados, têm direito à vida. Que a fome nunca pode ser uma arma. E que o silêncio, quando tudo está à vista, é também ele uma forma de violência.
Apelo à humanidade
A pergunta não é “porque é que isto ainda acontece?”. A pergunta é “como é que conseguimos continuar a viver como se não acontecesse?”. Porque, mesmo do outro lado do mundo, há coisas que nos dizem respeito. Porque as fronteiras da dignidade humana não são as dos mapas, são as do que permitimos. Do que toleramos. Do que escolhemos não ver ou mudar de canal.
Este texto é um apelo urgente. A que nos recusemos a aceitar o inaceitável. A que partilhemos. Denunciemos. Doemos. Pressionemos. E acima de tudo, a que voltemos a sentir. Porque, se deixarmos de nos comover, então sim, estaremos definitivamente a viver numa nova Idade das Trevas. Uma onde há wi-fi, redes sociais, carros autónomos e satélites… mas nenhuma humanidade.
