
A ideia era simples: sair da Azambuja na sexta-feira, seguir para Muge, depois Abrantes, Mação e Bemposta, e regressar no domingo. Sem hotel marcado, sem horários rígidos, sem grande plano de “batalha”. Apenas dois dias de estrada, bom tempo, água por perto (Tejo, Zêzere e alguns riachos providenciais) e a vontade de perceber como é viver, na prática, com uma carrinha que promete ser automóvel, quarto, cozinha, sala de estar e miradouro. Tudo ao mesmo tempo.
A primeira surpresa chega antes de qualquer ritual de campismo. A California Ocean é muito fácil de conduzir. Mesmo muito. Ao volante, não existe aquela sensação de se estar a manobrar uma autocaravana compactada por pressão atmosférica. A posição é elevada, a visibilidade é excelente, a direção é leve quanto basta e a caixa DSG de sete velocidades trata da vida com a suavidade esperada. A unidade ensaiada, equipada com o motor 2.0 TDI de 150 cv e 360 Nm, não procura entusiasmos desportivos, nem sequer faria sentido, mas tem força, disponibilidade e serenidade para transformar dezenas de quilómetros em horas de conversa.

Compacta q.b.
E depois há as dimensões. A California tem aquele tamanho certo que explica boa parte do seu encanto. Com 5,17 metros de comprimento e 1,97 metros de altura, é suficientemente grande para permitir dormir, comer, arrumar e viver a bordo durante um fim-de-semana, mas suficientemente compacta para andar por todo o lado. Centros de cidade, ruas estreitas, parques de estacionamento, acessos menos evidentes junto à água: nada disto se torna um drama. Em Muge, Abrantes, Mação ou Bemposta, nunca houve aquela sensação desconfortável de “onde é que metemos isto agora?”. Metemos. Cabia. E quando se viaja sem plano demasiado rígido, caber é uma virtude enorme.
Durante o fim-de-semana, a Ocean foi mudando de personalidade conforme a hora. Em andamento, era uma confortável carrinha de passageiros. Parada junto ao Tejo ou ao Zêzere, passava a ser base de operações. Abria-se a porta lateral, deixava-se entrar o ar, organizavam-se duas ou três coisas e, de repente, o automóvel deixava de ser automóvel. Era abrigo, cozinha, sala, sombra, camarim e ponto de observação. Uma espécie de apartamento T0 com rodas, vista variável e uma estranha capacidade de melhorar o humor de quem lá entra.

Lição de engenharia e aproveitamento de espaço
O interior é uma pequena lição de aproveitamento de espaço. Há gavetas, armários, bolsas, compartimentos e recantos por todo o lado. Nada parece ali por acaso. Ao fim de algumas horas, cada objeto começa a encontrar a sua morada natural: os cabos aqui, os óculos ali, os guardanapos naquele compartimento, a tralha de última hora numa gaveta que ainda não tínhamos descoberto. É quase um jogo. E, num espaço compacto, este tipo de organização faz toda a diferença entre o “que experiência gira” e o “nunca mais me meto nisto”.
Outro detalhe que se aprecia verdadeiramente à noite é a iluminação. Poder regular a intensidade das luzes parece uma nota menor quando se lê uma ficha técnica, mas a bordo ganha importância real. Depois de um dia de calor, estrada, banhos de rio e paragens sucessivas, ninguém quer um interior iluminado como uma sala de operações. Quer-se meia-luz e bom ambiente. A California permite criar esse conforto com uma facilidade notável. A iluminação suave transforma a carrinha num espaço acolhedor, quase doméstico, e ajuda a esquecer que estamos, tecnicamente, a dormir dentro de um veículo estacionado… num local apropriado para o efeito.
Um sono reconfortante
Dormir a bordo foi mais confortável do que a expressão “dormir numa carrinha” costuma sugerir. Há duas camas: a inferior, montada sobre os bancos, e a superior, no tejadilho elevatório. A cama de cima é mais generosa e até conta com um estrado de molas, já a de baixo cumpre bem, mas não é gigante. E é aqui que convém ser honesto. A California Ocean é ideal para dois adultos. Pode funcionar com dois adultos e duas crianças, sim, mas convém que sejam pequenas, que a bagagem seja escolhida com critério e que todos tenham algum sentido de humor. Quatro adultos? Só se forem muito amigos, muito magros ou se estiverem a participar num estudo sociológico sobre gestão de conflitos em espaços reduzidos.
A vida a bordo é confortável, mas não é palaciana. E ainda bem que não tenta fingir o contrário. A California resulta porque está muito bem pensada, não porque faça milagres. Dois adultos vivem ali com uma facilidade surpreendente. Dois adultos e duas crianças pequenas podem viver uma aventura muito engraçada. Mais do que isso começa a entrar no território da negociação diplomática: quem se mexe primeiro, onde estão os sapatos e porque razão alguém decidiu trazer uma mala rígida.

O pequeno-almoço a bordo foi talvez o momento em que tudo fez mais sentido. Acordar, abrir a porta, deixar entrar a luz da manhã, preparar qualquer coisa simples e olhar para a paisagem sem depender de horários de hotel tem um encanto muito próprio. Não há buffet, não há filas, não há sala cheia de gente demasiado desperta para aquela hora. Há café, pão, queijo, fiambre e água fresca, silêncio e uma carrinha que, durante aqueles minutos, parece ter sido inventada precisamente para isso.
Fogão e frigorifico, o que mais podemos querer?
A cozinha ajuda muito. O lava-loiça, o fogão e o frigorífico de 37 litros chegam perfeitamente para uma escapadinha deste género. Os depósitos de água limpa e de águas residuais dão autonomia suficiente para lavar mãos, cara, utensílios e resolver o essencial. O pequeno chuveiro exterior, na traseira, também cumpre bem a sua missão.
Agora, há um ponto importante. A California Ocean não tem casa de banho. E isso introduz na viagem uma nova forma de planeamento estratégico. Chamemos-lhe “gestão avançada de cafés”.
Uma casa de banho…
Ao longo do percurso, parámos várias vezes para “beber café”. Umas vezes, de facto, para beber café. Outras, digamos, num sentido mais amplo, simbólico e fisiologicamente urgente da expressão. De repente, cafés, restaurantes e postos de abastecimento ganham uma importância quase cartográfica. Já não são apenas locais onde se come ou se bebe qualquer coisa. São pontos de interesse. Faróis de civilização. Pequenos santuários com porta, lavatório e, idealmente, papel higiénico…
A verdade é que isto acabou por fazer parte da aventura. A ausência de casa de banho impede que a California se transforme numa bolha autossuficiente. Obriga-nos a parar, a entrar nas terras, a consumir qualquer coisa, a falar com pessoas, a pedir indicações, a descobrir restaurantes onde talvez não tivéssemos entrado. A liberdade continua lá, mas com uma saudável dose de humildade humana.
Com o calor a apertar e a proximidade da água, tudo se tornou mais fácil. O Tejo e os vários riachos pelo caminho funcionaram como extensão natural da California. Quando a temperatura subia, parava-se, abria-se a porta, procurava-se sombra, refrescava-se o corpo e seguia-se mais leve. Não era preciso montar um acampamento com bandeira, toldos, mesas, cordas e vizinhos. Bastava estacionar bem, abrir, respirar e deixar o tempo abrandar.
Também em andamento a Ocean convence pelo conforto. Os bancos são bons, a posição de condução é relaxada, o isolamento é convincente e a suspensão lida bem com estrada, cidade e acessos menos perfeitos. Ao fim de muitos quilómetros, duas noites a bordo, pequenos-almoços improvisados e várias paragens para “café”, não houve aquela fadiga típica de algumas aventuras que são mais bonitas de contar do que de viver. Pelo contrário. Ao domingo, a vontade era prolongar.

Conforto e facilidade de condução
A California é confortável, fácil de conduzir, cabe onde interessa, tem arrumação por todo o lado, permite ajustar a luz ao estado de espírito e transforma pequenas paragens em momentos de viagem. Não é uma autocaravana tradicional. Também não é apenas uma carrinha com truques. É um meio-termo muito bem resolvido entre mobilidade, conforto e liberdade.
No regresso, domingo, ficou aquela sensação agradável das boas escapadinhas: a de que dois dias souberam a mais. Não porque tivéssemos ido longe, mas porque fomos de outra maneira. Dormimos a bordo. Tomámos o pequeno-almoço a bordo. Lavámos mãos e cara no pequeno lavatório. Usámos o chuveiro exterior para o essencial. Fomos aos restaurantes para o resto. Refrescámo-nos no rio quando o calor apertou. E descobrimos que, às vezes, a diferença entre um fim-de-semana normal e uma pequena aventura está apenas na possibilidade de parar onde apetece.
Artigo por Rui Reis


