
Muitas pessoas preocupam-se com a alimentação, o exercício físico ou o descanso, mas raramente pensam nos químicos presentes em embalagens, produtos de limpeza ou objetos do dia a dia. Uma nova plataforma lançada pela Escola Nacional de Saúde Pública pretende ajudar a compreender como algumas destas substâncias podem interferir com o sistema hormonal e o que pode ser feito para reduzir a exposição.
As hormonas regulam grande parte do que acontece no organismo. Influenciam o metabolismo, o crescimento, a fertilidade, o sono, o humor e até a forma como o corpo utiliza e armazena energia.
Por isso, quando determinadas substâncias químicas conseguem interferir nesse sistema, os efeitos podem ir muito além do que a maioria das pessoas imagina.
Essas substâncias são conhecidas como disruptores endócrinos e podem estar presentes em produtos tão comuns como embalagens alimentares, cosméticos, detergentes, tintas, vernizes ou outros artigos de consumo diário.
Apesar de serem pouco conhecidos do grande público, existe um número crescente de estudos científicos que associa a exposição a estes químicos a problemas como obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças metabólicas.
Foi precisamente para ajudar os cidadãos a compreender melhor este tema que a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP NOVA), em conjunto com parceiros europeus, lançou a plataforma digital NEMESIS for You.
Disponível em nove línguas, incluindo português, o site reúne informação científica explicada de forma acessível e apresenta sugestões práticas para reduzir a exposição no quotidiano.
Um inquérito realizado no âmbito do projeto europeu NEMESIS, que contou com a participação de 364 pessoas em Portugal, concluiu que 93% dos participantes consideram importante evitar a exposição a disruptores endócrinos.
No entanto, apenas 18% afirmaram sentir-se confiantes na sua capacidade para o fazer. Por outro lado, 87% gostariam de ter acesso a mais informação sobre o tema.
“A maioria das pessoas está preocupada, mas não sabe exatamente o que pode fazer para reduzir a exposição no dia a dia”, afirma Cristina Godinho, professora auxiliar da ENSP NOVA.
A questão torna-se particularmente relevante porque a exposição a estes compostos não depende de uma única fonte. Trata-se, muitas vezes, de um contacto cumulativo que resulta de pequenas escolhas diárias relacionadas com alimentação, consumo e ambiente doméstico.
Embora seja praticamente impossível eliminar por completo o contacto com estas substâncias, os especialistas defendem que algumas mudanças simples podem fazer diferença.
Entre as recomendações apresentadas pela plataforma estão privilegiar alimentos frescos em detrimento de produtos muito embalados, ventilar regularmente a casa, aspirar com frequência, ler os rótulos dos produtos utilizados e optar por alternativas com menos ingredientes e menos fragrâncias.
Outra recomendação passa pela correta eliminação de resíduos químicos, como tintas ou vernizes, que não devem ser colocados no lixo comum.
Os investigadores alertam ainda para o facto de algumas fases da vida serem mais sensíveis à exposição a estes compostos. As grávidas e as crianças pequenas estão entre os grupos considerados mais vulneráveis.
Segundo a ENSP NOVA, alguns disruptores endócrinos conseguem atravessar a placenta, podendo influenciar o desenvolvimento fetal. Nos primeiros anos de vida, quando os sistemas hormonais ainda estão em formação, a exposição ambiental pode também ter um impacto mais significativo.
“Os primeiros anos de vida representam uma fase particularmente sensível para o desenvolvimento humano. A exposição a substâncias químicas em períodos críticos como o gestacional pode ter efeitos importantes na saúde”, refere Susana Viegas, professora catedrática da ENSP NOVA.
