
A associação ambientalista Zero aponta 2026 como um ano decisivo para a política ambiental em Portugal, com cinco dossiers-chave que vão do restauro da natureza à forma como reciclamos, produzimos, consumimos e reparamos bens. Mais do que metas abstratas, estão em causa decisões com impacto direto na economia, no território e na vida quotidiana.
A associação ambientalista Zero olha para 2026 como um ano de viragem, não por falta de planos ou leis, mas porque várias decisões adiadas durante anos chegam agora a um ponto crítico. O próximo ano concentra prazos europeus, obrigações legais e escolhas políticas que vão definir o rumo da sustentabilidade em Portugal na próxima década. E, segundo a Zero, o risco já não é a falta de ambição no papel, mas a incapacidade de transformar estratégias em ações concretas.
Um dos maiores desafios é o Plano Nacional de Restauro da Natureza, que Portugal tem de concluir e entregar à Comissão Europeia até 1 de setembro de 2026. O objetivo é recuperar ecossistemas degradados, em terra e no mar, mas o caminho é tudo menos simples. A maior parte do território rústico pertence a proprietários privados, o que obriga o Estado a criar incentivos financeiros claros para que o restauro aconteça no terreno e não fique apenas em documentos oficiais. No mar, o problema repete-se de outra forma: proteger ecossistemas exige áreas de proteção estrita, sem pesca ou exploração, algo que historicamente tem encontrado forte resistência.
Outro marco esperado para 2026 é a entrada em funcionamento do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) para embalagens de bebidas de plástico e metal. Previsto desde 2018 e sucessivamente adiado, o sistema deverá arrancar em abril. Na prática, significa devolver embalagens vazias e receber um valor em troca. Em países onde já existe, este modelo permite taxas de recolha superiores a 90% e reduz de forma visível o lixo no espaço público, um exemplo de como políticas ambientais bem desenhadas podem mudar comportamentos sem exigir grandes sacrifícios individuais.
Também em 2026 deverá ser apresentada a atualização do Roteiro para a Neutralidade Climática, alinhada com a meta legal de neutralidade carbónica em 2045 e com o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) para 2030. A Zero alerta que não basta reafirmar objetivos. O novo roteiro terá de explicar, de forma clara, como se chega lá, com trajetórias realistas, medidas concretas e mecanismos de execução credíveis. Os atrasos e dificuldades registados em 2025 tornam este exercício ainda mais exigente.
No plano económico, a associação chama a atenção para uma ausência estrutural: Portugal continua sem uma Estratégia Industrial Verde, apesar de esta estar prevista na Lei de Bases do Clima. Num contexto de transição energética e de forte competição internacional, a falta de um enquadramento estratégico para a indústria e para a inovação pode comprometer a competitividade do país e atrasar a adaptação a um modelo económico mais sustentável. A Zero espera que 2026 seja finalmente o ano em que esta estratégia deixa de ser apenas uma promessa.
Por fim, há uma mudança menos visível, mas com potencial impacto direto no quotidiano, desejam os ecologistas: a concretização do Direito à Reparação. A diretiva europeia foi aprovada em 2024 e Portugal tem até 31 de julho de 2026 para a transpor para a legislação nacional. Em causa está a criação de uma cultura que favoreça a reparação em vez da substituição de equipamentos. A Zero defende que esta transposição deve incluir apoios financeiros à reparação, formação de técnicos especializados e uma plataforma digital que ajude os consumidores a exercer esse direito.
No conjunto, as expectativas da Zero para 2026 mostram que a sustentabilidade já não é apenas uma questão ambiental. Cruza políticas públicas, economia, consumo e escolhas individuais. O próximo ano pode não resolver tudo, mas será determinante para perceber se Portugal consegue passar das intenções às decisões que realmente mudam o rumo.
