
Várias tempestades sucessivas colocaram mais uma vez a nu as fragilidades do país para responder a fenómenos climáticos extremos.
Portugal foi atingido, entre 22 e 28 de janeiro, por três tempestades consecutivas, Ingrid, Joseph e Kristin, sendo que a última provocou pelo menos dez mortos e danos severos em vários distritos. Neste momento, o país debate-se com a tempestade Leonardo. Especialistas ouvidos pela Lusa, pela CNN, pela SIC Notícias e pelo Público explicam que episódios assim não são inéditos, mas alertam que a intensidade dos fenómenos extremos deverá aumentar, num país que continua a reagir mais do que a preparar-se.
Pedro Matos Soares, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explicou em entrevista à Lusa que sequências como a da semana passada não são frequentes, mas também não são originais. O investigador descreve o fenómeno como um “comboio de depressões”, algo que faz parte do clima de um país localizado numa zona de transição.
A explicação meteorológica envolve o posicionamento do anticiclone dos Açores e a forma como este, ao fixar-se mais a sul do que o habitual, pode criar um corredor por onde passam tempestades geradas no Atlântico Norte.
Mas isso não significa que as alterações climáticas fiquem fora da equação. Pedro Matos Soares sublinha que não se pode atribuir diretamente uma semana chuvosa ao aquecimento global, mas lembra que a evidência científica aponta para um aumento de extremos: mais chuva quando chove; mais seca quando não chove. E, sobretudo, mais intensidade nos fenómenos.
O ponto importante parece estar aqui: mesmo que o número de tempestades não aumente drasticamente, a forma como elas chegam pode mudar.
É um pouco isso que afirma Ricardo Trigo, professor de climatologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Este cientista disse ao Público que não há evidência de que estes fenómenos estejam a tornar-se mais frequentes, mas sim mais intensos. E critica a resposta institucional, apontando falhas na comunicação, na preparação e em infraestruturas essenciais. “Os bombeiros ficarem sem telhado é ridículo. O SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal) falhar é ridículo”, sublinha.
Daí que, às reportagens da CNN e da SIC Notícias, Pedro Matos Soares insista que Portugal tem de se adaptar, criando infraestruturas repensadas para um clima diferente, e não já para o clima do século XX, com códigos de construção mais exigentes, telhados que resistam a vento extremo e uma maior resiliência em estruturas críticas, da rede elétrica às escolas, para que sejam capazes de funcionar.
As declarações destes especialistas expõem, deste modo, mais do que dificuldades provocadas pela meteorologia adversa, dificuldades criadas pela falta de preparação de um país seja no verão (com os incêndios), seja agora no inverno.
