
Há automóveis que brilham num ensaio curto, com a estrada perfeita e o tempo certo para bons momentos de condução. E há outros que sobressaem quando lhes tiramos parte do romantismo e os colocamos onde devem estar: na vida real, com a família atrás, tralha a transportar e aquela obrigação simples de cumprir. Foi precisamente assim que vivi duas semanas com um Polestar 2 Long Range Dual Motor com Pack Performance.
O desafio para passar 15 dias com um automóvel 100% elétrico de quase 500 cv de potência e uma vincada vocação dinâmica, resultou num misto de expetativa e receio. Isto porque o período em questão iria coincidir com uma intensa agenda de trabalho e com um curto momento de férias familiares. Ou seja, precisava de um automóvel confortável e espaçoso e, ao mesmo tempo, não podia estar limitado pela autonomia.
A base acabou por ser Lisboa, mas, pelo meio, uma sequência de viagens que, em Portugal, serviria de “tira teimas” a qualquer elétrico: Lisboa–Montargil, Montargil–Fronteira, Fronteira–Abrantes e regresso a Lisboa. Autoestrada, estradas nacionais, estradas secundárias com mau piso, muitas curvas e trajetos longos e cansativos. E, como acontece quando um carro entra a fundo na rotina familiar, as circunstâncias nunca eram as mesmas. Ora éramos dois, ora quatro ou mesmo cinco. Umas vezes sem carga outras com a bagageira atafulhada de coisas. O mais interessante? O Polestar 2 Performance não pede desculpa por ser o que é. Nem tenta ser tudo para agradar a todos. Mantém a identidade mesmo quando tem de ser, antes de mais, é um carro de família.

O “Performance” aqui não é apenas para português ver
Nesta configuração, falamos de um Polestar 2 com dois motores, uma bateria grande (82 kWh brutos, 79 kWh úteis) e um pacote que coloca o foco onde deve estar: no que se sente na estrada. O Pack Performance eleva a potência para os 476 cv (350 kW) e o binário para os 740 Nm. Os 0-100 km/h são atingidos em 4,2 segundos e a velocidade máxima é limitada a 205 km/h. E depois há o resto, o que não cabe nos números, mas define tudo: amortecedores Öhlins DFV ajustáveis e travões Brembo de 4 pistões.
Quando a potência também é segurança (e diversão)
Este foi um daqueles raros testes em que a família percebe o carro antes do jornalista. A minha mulher adorou conduzir o Polestar 2 pela razão mais honesta do mundo: a facilidade de condução e a resposta pronta do motor, mas, acima de tudo, a capacidade de impressionar os amigos com as acelerações brutais desta versão Performance. Aqui, a entrega de binário é imediata, sem hesitações, quase como se fóssemos largados por uma “fisga” e isso transmite um prazer quase infantil, sim, mas também resolve o lado prático com uma naturalidade que só quem anda com o carro cheio valoriza: entradas em vias rápidas feitas com margem, ultrapassagens mais curtas, manobras resolvidas sem “discussão”. Mesmo com carga, o Polestar mantém a compostura. Não há aquele efeito de “dois carros num”: um entusiasmante no primeiro dia e cansativo ao fim de uma semana. O Polestar 2 é coerente e isso, em uso familiar, vale muito.

Suspensão firme, controlada… e sem prometer um “tapete voador”
A suspensão é firme numa utilização familiar. Não chega a ser desconfortável, mas não oferece aquela sensação de tapete voador de um Polestar 3, por exemplo. O que há aqui é mais leitura do asfalto, mais ligação, mais verdade. Em bom piso, é delicioso: o carro assenta, muda de apoio com seriedade e parece sempre “amarrado” à estrada. Em piso degradado, não castiga, mas também não disfarça as jantes de 20” e os pneus de baixo perfil.
Aliás, dinamicamente, esta versão é muito divertida de conduzir. E isso nota-se tanto quando estamos sozinhos como quando vamos com gente a bordo: há estabilidade, há precisão e há uma sensação clara de que o chassis foi pensado para lidar com esta potência sem pedir milagres ao condutor. E os travões? Bem, aqui não há rodeios: os travões, com o dedo da Brembo, são espantosos na resistência e capacidade de travagem. A diferença não está em travar uma vez; está em travar bem à décima, à vigésima, quando o ritmo sobe e a estrada aperta.
Fronteira como desculpa perfeita: o bálsamo da manhã
A oportunidade de fazer um trabalho em Fronteira permitiu explorar melhor as estradas secundárias que ligam a Vila Alentejana a Montargil. Meter-me à estrada, de manhã muito cedo, ainda com o sol tímido no horizonte e uma neblina que parecia cobrir tudo com um manto branco e translúcido, é das melhores sensações de sempre para quem gosta de conduzir. Estradas desertas, sozinho, um automóvel com quase 500 cv e boa disposição, parecem um bálsamo matinal que arranca um sorriso ao mais empedernido dos condutores.
É neste cenário que o Polestar 2 Performance deixa de ser “um elétrico rápido” e passa a ser um carro com personalidade. A tração às quatro rodas dá-lhe uma autoridade brutal à saída de curva e uma estabilidade muito séria em apoio. E o detalhe técnico que ajuda a explicar a maturidade desta fase mais recente é simples: em andamento constante e carga reduzida, o sistema pode desacoplar o motor dianteiro para otimizar consumos; mas volta a trazê-lo para jogo mal se vira o volante, se toca nos travões ou se pede potência a sério. Ou seja: poupa quando pode, agarra quando é preciso.
À noite, cansado, a conversa muda
Já de regresso, cansado e de noite, só damos “graças a Deus”, pela segurança e facilidade de condução do Polestar 2 e, já agora, pelos magníficos faróis de LED. É nestes momentos que muitos carros perdem encanto e ganham ruído. O Polestar 2 faz o inverso: quanto mais o dia pesa, mais se agradece a previsibilidade do conjunto direção, travagem, estabilidade, assim como a resposta pronta e linear dos motores elétricos e a forma como o carro não nos exige mais do que aquilo que já estamos a dar.
Carregar e gastar: o lado pouco glamoroso (e o mais real)
A minha vida com este Polestar foi tudo menos passada em postos de carregamento rápido. Carreguei quase sempre em casa, numa tomada convencional, a uns modestos 2,3 kW, mas era suficiente. É o lado pouco glamoroso do elétrico e, ao mesmo tempo, o mais transformador: acordar com o carro “pronto” e a rotina tratada. Obriga a algumas contas de cabeça, é verdade, mas nunca ficámos apeados ou perto de passarmos umas horas à espera do reboque.

Mesmo nos consumos, a fotografia foi honesta para um Dual Motor com esta potência: médias entre os 17 e os 21 kWh/100 km, dependendo do pé, da companhia e da estrada. Quando se conduz com método, o carro recompensa. Quando se usa o que ele tem de melhor, e neste caso é difícil resistir, o consumo sobe, como é suposto. A boa notícia é que, mesmo assim, o Polestar mantém-se previsível e fácil de gerir.
Para quem quer a nota técnica completa: em carregamento, este conjunto admite AC até 11 kW (trifásico) e DC até 205 kW, com uma janela típica de 10 a 80% em menos de 30 minutos num posto rápido nas condições certas. Mas a verdade deste teste é outra: com disciplina e uma tomada doméstica, também se vive bem.
No fim, o que fica
Ao fim de duas semanas, ficou-me uma conclusão simples: o Polestar 2 Performance aguenta a família, a bagagem e as rotinas sem se tornar um sacrifício e, quando a estrada abre (sobretudo de manhã cedo, a solo e em pleno silêncio), lembra-nos porque é que gostamos tanto de conduzir. Não é um tapete voador. É um carro firme, sério, com travões excelentes e uma disponibilidade de potência que tanto serve para impressionar como para resolver. E isso, para mim, vale mais do que qualquer número.
Artigo por Rui Reis


