António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março de 2026, em Lisboa, aos 83 anos. A notícia deixa um silêncio difícil de explicar. Não é só a partida de um grande escritor. É a sensação de que desaparece uma voz que, durante décadas, nos obrigou a encarar o que costuma ficar escondido: a dor, a culpa, o medo, o amor mal resolvido, e as memórias que nunca desaparecem por completo.
O país assinala a perda com um dia de luto nacional no sábado, 7 de março. É um sinal de respeito por alguém que marcou a literatura portuguesa como poucos.
Antes de ser escritor, foi médico
Antes de viver da escrita, António Lobo Antunes foi médico. Estudou Medicina e especializou-se em Psiquiatria. Trabalhou no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, onde lidou de perto com pessoas em sofrimento, com histórias difíceis e com vidas partidas. Essa forma de ouvir e observar o ser humano entrou nos seus livros.
Entre 1971 e 1973 esteve em Angola como médico militar, durante a Guerra Colonial. Essa experiência deixou marcas e aparece muitas vezes na sua obra, não como “lição de História”, mas como ferida e memória.
Os livros não são “fáceis”, mas são muito humanos
Ler Lobo Antunes nem sempre é simples. A escrita dele tem frases longas, saltos no tempo e muitas vozes ao mesmo tempo, como se estivéssemos dentro da cabeça das personagens. Mas, para quem entra, há recompensa: ele escreve emoções verdadeiras, sem maquilhagem.
Os seus romances falam muito de família, de passado, de traumas e de um país que mudou, mas que nem sempre conseguiu resolver as suas sombras. Ele escrevia Portugal por dentro, sem vergonha e sem atalhos.
Por onde começar, se nunca o leste
Se sempre quiseste ler Lobo Antunes mas foste adiando, aqui vão cinco sugestões que podem servir de porta de entrada:
- Memória de Elefante — o começo: uma viagem intensa por dentro de um homem cansado e inquieto.
- Os Cus de Judas — a guerra e o regresso, com tudo o que fica preso na memória.
- Conhecimento do Inferno — o mundo da psiquiatria e o que ele revela sobre as pessoas.
- Manual dos Inquisidores — uma história sobre poder, medo e o peso de certos tempos.
- Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? — um romance já com o estilo dele no máximo.
A despedida em Lisboa
O corpo de António Lobo Antunes irá estar em câmara ardente no Mosteiro dos Jerónimos a partir da tarde de sexta-feira, 6 de março. No sábado, 7 de março, realizam-se as cerimónias e a missa, seguindo depois para o Cemitério de Benfica, em Lisboa.
Artigo por New Men
