
Há apresentações que parecem feitas para “mostrar o carro”. E há outras que são desenhadas para nos mostrar uma ideia. A apresentação do Mazda 6e em Granada foi, claramente, a segunda. Chegada por Málaga, subida até ao centro histórico, base no Alhambra Palace, briefing e jantar de boas-vindas e, no dia seguinte, 300 quilómetros de estrada à volta da cidade, com o deserto de Gorafe de um lado e a Sierra Nevada do outro, como se alguém tivesse decidido colocar dois mundos antagónicos na mesma rota.
No meio disto tudo esteve o Mazda6e Long Range. E a pergunta, desta vez, não é “quantos segundos faz” ou “quantos quilómetros promete”. A questão, neste caso foi outra: este carro combina com a viagem, com o ritmo, com o cenário, com o tipo de prazer que não se mede em números?

Hotel Alhambra Palace: o lugar onde a estética começa a fazer sentido
Há um detalhe que não aparece nas fichas técnicas: o ambiente. O Alhambra Palace tem aquela elegância com peso, feita de arcos, esculturas, padrões e uma luz quente, onde tudo parece ter sido colocado com tempo e atenção ao detalhe. É o tipo de cenário que expõe imediatamente um carro que não tenha presença. O Mazda6e não sofre desse problema.
Mesmo antes de o conduzir, percebe-se que este é um automóvel elétrico que não tenta parecer “futurista” só para agradar aos geeks da alta tecnologia. O desenho é limpo, as proporções são equilibradas e o Mazda tem uma faceta de Gran Turismo moderno: longo, baixo e esguio. Como um fato bem cortado que não precisa de gravata para parecer caro.

Briefing e realidade: quando o discurso acaba e começa a vida
As apresentações têm sempre o seu ritual: conferência de imprensa com mensagens-chave, a inevitável conversa sobre transição energética e o desfilar de dados técnicos que, na prática, se resumem aos mais relevantes preço, potência e autonomia. Mas numa região plena de detalhes arquitetónicos quase obsessivos, só nos lembrávamos de uma coisa ainda mais simples: a forma importa. E um Mazda vive muito da forma.
Já prontos para o test-drive, entramos no 6e e percebemos uma segunda camada de emoção: o interior é moderno, muito digital e mais “screen-first” do que era habitual na Mazda. O ecrã grande domina, a instrumentação é totalmente digital e há aquela sensação de que, para fazer certas coisas, é preciso estar confortável com menus, app e controlos táteis, como quem mexe num smartphone com a destreza de um “gamer” profissional. Em contrapartida, o ambiente é agradável, os materiais convencem, sem deslumbrar, e a sensação geral é de um automóvel pensado para viajar: silencioso, com bons bancos, e com um habitáculo que isola o mundo quando o dia está “corrido”.

Gorafe: o silêncio certo para perceber um elétrico
O deserto de Gorafe não é só paisagem, é contraste. É ali que o silêncio de um elétrico deixa de ser novidade e passa a ser um argumento decisivo. Com o 6e Long Range, essa serenidade é a sua linguagem natural. Ele não tenta impressionar com agressividade; prefere ser fluido. A entrega de potência é progressiva, o andamento é fácil e há uma certa maturidade que combina com o tipo de viagem que este programa queria construir.
A versão Long Range faz sentido aqui por uma razão simples: dá tranquilidade mental. Sabemos que há autonomia, sabemos que o carro aguenta um dia longo, e isso muda a forma como vivemos a estrada. Não é só “para fazer mais quilómetros”, é para pensar menos no assunto.
Há, claro, uma nuance que convém dizer como se diz a um amigo: esta mesma versão Long Range privilegia o alcance, mas pede mais paciência em carga rápida quando comparada com a bateria mais pequena. Numa viagem com tempo, e esta tinha tempo de sobra, isso quase não se sente. Na vida real, é um dado a ter em conta, dependendo do tipo de utilização.

Sierra Nevada: quando o carro mostra o seu lado mais “gran turismo”
Mais perto de Alhambra, ali paredes meias com Sierra Nevada, chegamos a outra dimensão: curvas, altimetria, ritmos diferentes. Aqui, o Mazda6e confirma o que já sugeria na autoestrada: é estável, confortável e previsível, com tração traseira e uma postura segura, mas sem aquela vontade de “morder” a estrada que alguns Mazdas térmicos têm como assinatura emocional.
O 6e prefere ser polido. Para um público lifestyle, a virtude é clara: é um carro que nos deixa chegar frescos, compostos e com a sensação de que o tempo passou, quase sem darmos por ele. Que não nos cansa. Que não nos obriga a estar sempre a “trabalhar” o volante. É um elétrico grande com ambições de viagem, vocacionado para o conforto e que conduz como tal.

A central solar: quando a energia deixa de ser um número
A visita à central de transformação de energia foi o momento em que o tema “elétrico” deixou de ser conversa e ganhou escala. Ver uma instalação solar que utiliza painéis para gerar energia térmica, aquecendo água para produzir vapor e eletricidade, muda a nossa relação com a palavra “carregar”. De repente, a percentagem no ecrã do carro parece menos abstrata.
E há também um lado estético nisto: aquelas estruturas, alinhadas e repetidas, com reflexos e geometria industrial, têm um impacto visual forte. É o tipo de cenário que combina com o próprio Mazda6e: moderno, limpo, feito de superfícies, e com uma serenidade que não grita. O carro ali, parado ao sol, parecia fazer parte do lugar, como se a viagem tivesse sido escrita com essa fotografia em mente.
O preço certo
No capítulo do preço e das versões, a Mazda optou por uma abordagem quase “anti-complicação”: duas baterias, dois níveis de equipamento e poucas distrações pelo caminho. A base da gama assenta na versão de 68,8 kWh (a mais rápida a carregar em DC), enquanto a Long Range sobe para 80 kWh para quem privilegia autonomia e quer reduzir a frequência de carregamentos, mesmo aceitando um ritmo mais lento nas cargas rápidas. Em Portugal, os preços começam nos 40.050 € e vão até aos 44.500 € na Long Range Takumi Plus, com a sensação clara de que a marca quis manter o 6e num patamar “aspiracional, mas alcançável” e, para muitos, esse pode ser o argumento mais forte de todos.
No fim, o que fica é o poder de sedução
O melhor elogio que posso fazer ao Mazda6e, depois destes mais de 300 quilómetros à volta de Granada, é simples: houve um ponto em que ele deixou de ser “o carro do evento” e passou a ser apenas o carro em que eu estava. E isso é raro. Porque a novidade, quando é demasiado intrusiva, nunca nos larga. Aqui, largou. Em suma, o Mazda6e Long Range é um elétrico elegante, competente e confortável, com um interior moderno que pede alguma adaptação aos comandos “escondidos” no ecrã tátil, mas que se mostra sedutor quando entramos no seu mood e no ritmo. Granada ajudou, claro. O Alhambra Palace, a luz, o contraste entre Gorafe e a Sierra Nevada, a pausa na central de energia. Mas o carro também fez a sua parte: não tentou ser protagonista. Foi uma companhia.
Artigo por Rui Reis
