Nas vésperas do ataque das tropas de Moscovo à Ucrânia, os dirigentes russos, desde o ditador Putin até a funcionários como Masha mentirosa, porta-voz do MNE russo, e Dmitri Peskov, também conhecido como “a voz do chefe”, juravam que a Rússia jamais invadiria um Estado “irmão”. Mentiam com todos os dentes.
Iniciada a invasão, os oficiais russos levavam consigo fardas de cerimónia para a sua exibição no centro de Kiev após a rápida capitulação dos ucranianos. Segundo as informações que os serviços secretos russos (FSB) transmitiram a Putin antes do ataque, 80% dos ucranianos iriam apoiar a entrada das tropas invasoras, pois queriam livrar-se do “governo neo-nazi” do Presidente Volodomyr Zelensky.
O ditador Putin queria repetir a “adesão pacífica da Crimeia” na ocupação do país vizinho.
Serguey Naryshkin, chefe dos serviços secretos externos da Rússia, teria dados preocupantes para o Kremlin, que apontavam para a realidade da resistência ucraniana e da resposta dos países da NATO, mas ele não teve coragem de convencer Putin a dar voltar atrás. Lembram-se daquele encontro de dirigentes russos no Kremlin a 21 de Fevereiro de 2022? Aqui fica o diálogo
“Sergey Naryshkin concluiu o seu discurso sobre a situação na Ucrânia dizendo que, na sua opinião, os parceiros ocidentais deveriam ter uma última oportunidade para forçar Kiev a fazer a paz e implementar os Acordos de Minsk. Caso contrário, resumiu o Diretor de Inteligência Estrangeira, “teremos que tomar a decisão discutida hoje”.
Vladimir Putin: O que você quer dizer com “caso contrário”? Está a propor iniciar negociações ou reconhecer a soberania delas [das regiões separatistas do Leste da Ucrânia]?
Sergei Naryshkin: Apoio a proposta de reconhecimento…
Vladimir Putin: Vai apoiar ou não? Fale francamente.
Sergei Naryshkin: Apoio a proposta de integração das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk na Federação da Rússia.
Vladimir Putin: Não estamos a falar disso. Não estamos a discutir isso. Estamos a falar sobre reconhecer ou não a independência delas.
Sergei Naryshkin: Sim, eu apoio a proposta de reconhecimento da independência.”
A reacção dos ucranianos só surpreendeu aqueles que não conhecem a história desse povo. Se surpresa ouve, ela diz respeito à decisão de Volodomyr Zelensky de não abandonar o barco do poder e de dirigir a resistência às hordas russas. E não se enganou.
Não foram nem três, nem quadro dias, nem meses, mas o conflito já vai nos quatro anos e é difícil determinar quando é que acabará.
Infelicidades da Ucrânia
Primeira infelicidade: o ditador russo não esperava a reacção dos países da NATO. Ele acreditava que eles iriam aceitar a “libertação da Ucrânia”, mas tal coisa não aconteceu. Esses países decidiram apoiar Zelensky e o povo ucraniano. Porém, devido a divergências e atritos dentro da União Europeu e da NATO, os membros dessas organizações não forneceram atempadamente a Kyiv os armamentos necessários. Os aliados da Ucrânia podiam ter encerrado o espaço aéreo ucraniano aos aviões ou apresentar um ultimato a Putin. Mas prevaleceu o receio de que Moscovo recorresse às bombas do “Juízo Final”.
Segunda infelicidade: os norte-americanos decidiram eleger Donald Trump para o cargo de Presidente. A insuficiente ajuda militar de Joe Biden à Ucrânia foi suspensa e só reatou quando os europeus passaram a pagar os armamentos norte-americanos. Além disso, as atitudes de Trump para com Putin foram uma “benção divina” para o Kremlin. O líder norte-americano: narcisista total, ignorante em política internacional, mentiroso compulsivo e mentalmente desequilibrado, passa a dar “uma no casco, dez na ferradura”, sendo a Ucrânia esta última. Ele não pressiona tanto Putin, como Zelensky: empurra os ucranianos para a capitulação (cedência de todo o Donbass a Moscovo) e recusa conceder medidas de segurança à Ucrânia para 30 ou 50 anos.
Terceira infelicidade: a União Europeia não é capaz de superar as divergências entre os seus membros face à Ucrânia, perdendo tempo em discussões ocas e infrutíferas. O fracasso das sanções à Rússia é um bom exemplo disso. E se há na Europa a percepção de que é preciso fazer dela um dos polos do futuro mundo multipolar, ela tem de romper a burocracia europeia e o nacionalismo de alguns dos seus membros. Recordo mais uma vez que Putin não quer morrer antes de ver rebentar por dentro a UE e a NATO.
Nos próximos dias 26 e 27 de Fevereiro, irão ser reatadas as conversações entre russos e ucranianos na Suíça, mas as expectativas são mesmo muito baixas, pois falta encontrar uma saída para este difícil impasse. Putin irá continuar a apostar na guerra de desgaste, na solução militar do conflito e quer cumprir a promessa de vitória, e disso defenderá o seu futuro político. Zelensky não pode fazer cedências territoriais, caso contrário, será banido do cargo.
