Composto por 88 ilhas e ilhéus na costa atlântica da Guiné-Bissau, o arquipélago dos Bijagós foi inscrito como Património Mundial Natural pela UNESCO, em reconhecimento do seu valor ecológico único, onde a biodiversidade e a cultura tradicional vivem em harmonia.
As ilhas dos Bijagós, na Guiné-Bissau, foram elevadas a Património Mundial Natural, tornando-se no primeiro sítio do país africano a integrar a lista da UNESCO, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.
A decisão foi anunciada durante a 47.ª reunião do Comité do Património Mundial da Unesco, que decorre até dia 16, na sede da organização, em Paris.
A elevação do arquipélago dos Bijagós a Património Mundial Natural não é apenas um marco para a Guiné-Bissau — que pela primeira vez vê um dos seus territórios integrar a prestigiada lista da UNESCO — mas também um reconhecimento internacional da importância ambiental única destas ilhas atlânticas, verdadeiros bastiões da biodiversidade na costa ocidental de África.
Composto por 88 ilhas e ilhéus, dos quais apenas 23 são habitados, o arquipélago abriga um dos ecossistemas marinhos e costeiros mais ricos da África Ocidental, essencial não só para a conservação da vida selvagem, mas também para o equilíbrio ambiental da região.
O reconhecimento da UNESCO incide sobre o chamado “Ecossistema Marinho e Costeiro do Arquipélago dos Bijagós – OMATÍ MINHÕ”, abrangendo três áreas de conservação interligadas: o Parque Natural das Ilhas de Orango, o Parque Nacional Marinho João Vieira e Poilão, e a Área Marinha Protegida Comunitária das Ilhas Urok.
Estas zonas formam o núcleo da biodiversidade do arquipélago, com destaque para três componentes ecológicos cruciais:
Tartarugas-marinhas: as ilhas, em especial Poilão, são um dos locais de desova mais importantes do Atlântico oriental. A proteção dessas praias garante a continuidade de espécies ameaçadas como a tartaruga-verde e a tartaruga-de-pente.
Aves migratórias: as Bijagós são um ponto-chave na rota migratória do Atlântico Leste, acolhendo anualmente centenas de milhares de aves que ali se alimentam e repousam. A produtividade biológica das zonas húmidas é vital para o sucesso dessas migrações.
Espécies emblemáticas e raras: além das tartarugas, o arquipélago acolhe hipopótamos marinhos — uma subespécie que vive tanto em água doce como salgada — e espécies vulneráveis como tubarões e raias, que utilizam estas águas rasas como áreas de reprodução e alimentação.
Mas a relevância ambiental das Bijagós vai além da fauna. Trata-se de um dos poucos locais onde a cultura local e o modo de vida tradicional estão intrinsecamente ligados à conservação ambiental. A população bijagó, com um sistema social matriarcal e uma cosmovisão que valoriza a natureza, desempenha historicamente um papel ativo na proteção dos recursos naturais, reconhecendo, por exemplo, tabus em torno de certas espécies e territórios sagrados.
A distinção da UNESCO vem, assim, também reconhecer o papel das comunidades locais como guardiãs da biodiversidade, algo que várias entidades sublinham como um exemplo de gestão sustentável baseada no conhecimento tradicional.
Com esta classificação, as Bijagós juntam-se ao grupo restrito de regiões costeiras e insulares no mundo que conseguiram equilibrar conservação, cultura e usos sustentáveis dos recursos. E abrem caminho para que a Guiné-Bissau possa posicionar-se como referência no ecoturismo e na proteção marinha, num momento em que o planeta enfrenta uma crise de perda de biodiversidade sem precedentes.
